segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Ocidente é um acidente - Por um diálogo entre as civilizações. Roger Garaudy - Ed. Forense Universitária

p. 116 - Vou citar textualmente palavras de um africano, Boubou Hama:

Na perspectiva africana, o universo inteiro é concebido como um campo de forças; quer se trate das forças da natureza, dos ancestrais ou do próprio homem.
Por exemplo, o vínculo que une um africano à sua terra é coisa diferente de um direito: esse elo tem uma significação biológica e quase metafísica. A terra e o homem são parte um do outro, pertencem ao mesmo campo de forças.
Quando um homem se serve da terra, quando lavra a terra, quando abate suas árvores, quando pesca os peixes de seus rios, quando faz uso da terra ou do que esta engendra, o africano está consciente de atentar contra a ordem estabelecida do universo, sua estabilidade, seu equilíbrio; e para restabelecer este equilíbrio, observa, escrupulosamente, os ritos que legalizam seus atos, oferece sacrifícios.
Da mesma maneira, o joalheiro não tem o direito de falsificar o ouro, a prata ou o cobre.
A aliança que liga o joalheiro a seus metais é igualmente um vínculo biológico e metafísico. Se ele misturasse esses metais com outros, se os desnaturasse, eles se vingariam sobre o homem que ousou assim romper a aliança concluída entre ele e a matéria com que trabalha.
Da mesma maneira, ainda, o caçador se sente ligado física e espiritualmente ao animal ou ao vegetal, com toda a vida do universo, indivisivelmente física e espiritual.
Sabe que os animais ou os vegetais não são somente para servirem de ornamento, ou elementos exteriores, mas são realidades materiais e espirituais nas quais se concentra e se realiza o equilíbrio entre o campo das forças físicas e os espíritos que o regem.
O caçador tem perfeita consciência de que sua caça é uma destruição, que produz um desequilíbrio na natureza; assim como a derrubada de árvores que são também pontos de força, como toda realidade viva.
Há nas árvores gênios/espíritos, bons ou maus, e os gênios podem se vingar dos lenhadores que destroem.
Com essa visão do mundo, o africano sempre oferece um sacrifício antes de dispor de um elemento do universo, quer se trate do vento, da água, do mineral, da gruta, do animal, da árvore, da própria terra.
Nada disso é apropriado ou manipulado ao acaso e impunemente.”

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