sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sebastião Salgado - Pequenas reflexões!

Culturas particulares dos povos


Sebastião Salgado, Entrevista concedida a Caros Amigos em 2002.


Em viagem recente ao Rio de Janeiro, relembrando com Lélia (companheira de Sebastião Salgado e produtora gráfica de seus trabalhos) de quando estudávamos sobre os acidentes geográficos em torno desta cidade, tais como o dedo de Deus, os Dois Irmãos, considerávamos isto como dados da mais alta importância na geografia, e até sentíamos um tremorzinho quando víamos uma dessas referências. Hoje não temos mais estas sensações, houve uma padronização, uma harmonização de tudo; claro, por meio de um sistema informativo incrível, de um brutal acesso às informações. Mas a questão que me coloco é: Como é que vamos voltar atrás, será que tem jeito? Será que isto não é uma opção, que foi feita de uma parte, imposta de outra? Trabalho muito no mundo inteiro. As primeiras vezes que fui a Índia, todos os homens usavam calça branca amarrada na cintura com um blusão que chegava até o joelho, indumentária muito elegante. As mulheres todas de sári. Hoje, parte das mulheres ainda continua usando sári, mas os homens estão todos de jeans e camiseta, exceto durante as festividades, ou ainda muito no interior do país. Nós podemos sair deste sistema? Essa questão já prova uma parte do sofrimento que nós estamos tendo com a pressão da padronização. Talvez a gente pudesse, num país como o nosso, fazer outra globalização, um pouco mais humanizada. Não acredito que o governo Lula vá poder sair do sistema global, do qual o Brasil faz parte, e teve que fazer parte. Não podia fazer caminho separado. Mesmo países como a Índia e a China, que não aceitam a pressão do FMI, estão todos também padronizados, talvez com margem pouco melhor de manobra, mas no que diz respeito aos hábitos e costumes sofrem do mesmo problema. Se nós mesmos respeitássemos nossa singularidade cultural, seguramente viveríamos mais em conformidade com nossa auto estima. Mesmo na música popular, perdeu muito de sua influência. Os lançamentos nacionais muitas vezes são pressionados por um sistema global que informa, massacra e indica o que é importante. É como se a gente não tivesse identidade cultural.

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