quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pondo os livros em ordem

Resolvi organizar meus livros.
Eles que vivem correndo de mim, me enganando sobre onde estão, não querendo que eu os encontre.
Sempre que penso em um, aparece o outro e vice-versa.
Se não correm de mim,
Quem sabe não tenho companhia nas estantes, entre uma divisória e outra, entre um espaço e outro, em uma fenda do tempo, quem sabe, lá, não more um duende.
A verdade é que os livros nos escolhem, conhecem nosso melhor momento, nossas maiores e mais íntimas necessidades.
Se estivermos tristes, evitam os dramas, se estamos alegres nos colocam uma comédia, se precisamos de poesia nos oferecem uma rima.
Tantas histórias, tantos personagens,
vivos ou da imaginação.
Difícil escolher um deles, por isto eles nos escolhem.
De pronto comecei a relacioná-los.
Sem ordem, apenas separando por nome, autor e gênero e aí começa outra história e outro drama.
Como catalogar o gênero se nem sempre o que se diz é o que entendemos.
Mas gênero tem importância?
Não,
o principal é que se tenha uma boa história por onde caminhar, navegar ou flutuar.
Não queremos tantas setas já que lá pelo meio do livro já não sabemos bem o que nos prometeram no prefácio.
Livros, meus companheiros.
Deles não me desfaço, já mudei tantas vezes e eles sempre comigo.
Alguns já se foram
Foram alegrar corações alheios.
Vão embora,
Porque já não mais os compreendemos ou porque
Compreendemos até demais.
O importante é que seus significados não se percam. Quem sabe outros possam decifrá-los e venham até nós contar a novidade.
O certo é que contando, de nada adiantará porque para cada um,
O livro é uma misteriosa senhora
que se fecha, se esconde,
até que o coração possa se abrir por inteiro feito flor germinando no mundo da imaginação.


Soneto de Fidelidade - Vinícius de Morais

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág. 96.

INFORMAÇÕES SOBRE AS ATIVIDADES TEOSÓFICAS PELO MUNDO


As atividades no Paquistão foram suspensas em função da situação política.
Na Austrália existem 1200 membros.
Na Zâmbia houve um aumento no número de teosofistas.
Na África do Sul foi realizada uma Convenção anual tendo como tema central “O Oceano da Teosofia”. Os trabalhos tem se desenvolvido de forma satisfatória e foi montado um curso de teosofia básica.
O trabalho na Costa do Marfim teve avanços após os conflitos na região.
A Sociedade Teosófica tem delegados nos seguintes países: Austrália, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Indonésia, Itália, Países Baixos, Portugal, África do Sul, Suécia, EUA, República Dominicana, Inglaterra, Irlanda, pacífico Sul, Israel, nova Zelândia, Noruega, Filipinas, porto Rico, Singapura, Eslovênia, Espanha, Siri Lanka, Ucrânia...
Na Inglaterra tem uma publicação chamada Esotérica”. Em Liverpool ocorreu a Escola de Verão cuja oradora principal falou sobre a “Doutrina Secreta”.
Na Escócia o estudo da teosofia se revigorou com reuniões regulares ocorridas em Glasgow, Edimburgo e Dundee.
Na Irlanda também, em Belfast e Dublin.
Na Suécia a adesão é pequena.
Na Noruega não há numero suficiente para fazer uma seção.
Na Islândia tem uma publicação “Procura o Caminho”.
Na Finlândia tem palestras regulares em 22 cidades.
A Bélgica tem 97 membros e 3 Lojas.na França tem uma revista “Lê Lótus Bleu” que é enviada a Bélgica e aos países de língua francesa.
Na Holanda existem 10 Lojas e 9 Centros de Estudo com 400 membros (tem livraria e editora).
Na Grécia há uma revista “Ilisos”, 117 membros.
Na Itália a venda de livros aumentou 17% e tem uma revista chamada “Teosófica” e a OTS constituída e atuante.
Na Hungria houve uma adesão 41membros e lá têm ocorrido várias tentativas para que houvesse um aumento e expansão. Tem sido difícil em função de ser um país ex-comunista.
Foram traduzidos “O Sistema Solar” de Powell e “Cristianismo Esotérica” de Annie Besant.
Na Eslovênia foi aberta uma escola de inverno dedicada a trabalhar para Adyar.
Na Croácia tem 22 membros e 1 Loja.
Na Ucrânia 4 Lojas e 70 membros.
A Seção Americana perdeu 250 membros, tem um programa de teosofia adaptado para as prisões.
Segundo o relatório, o Brasil tem 747 membros, 1500 cópias da Revista de Teosofia.
Na Colômbia vários livros foram estudados ao longo do ano.
No Chile teosofistas ajudaram na reconstrução da Loja depois do terremoto que houve.
No México foram feitos vários cursos.
E, El Salvador a Loja Teosófica comemorou 100 anos.
Na Bolívia o trabalho segue bem como no Peru.
Na República Dominicana o trabalho segue com palestras com a presença de 45 pessoas sendo que a maioria  não é membro.
Singapura tem 3 Lojas e 66 membros.
No Japão as obras de Blavatsky são estudadas.
No Olcotty Education Society em Adyar tem o Olcotty School com 1520 alunos que recebem café da manhã, aula, livros didáticos, uniformes e notebook. São crianças e pais pobres.
No centro de bem Estar Social em Adyar, 100 crianças em idade pré-escolar são alfabetizadas, tem música e dança.
A Editora Teosófica na Índia teve um bom ano.




O PLANO DIVINO E A SOCIEDADE TEOSÓFICA - I. K. Taimni

 Uma das idéias mais inspiradoras e iluminadoras que a Filosofia Oculta deu ao mundo moderno é aquela da operação de um Grande Plano por detrás dos fenômenos, aparentemente caóticos e sem propósito, que estão eternamente ocorrendo nas diferentes partes do universo. Ninguém que observe o trabalho da Natureza, mesmo que ocasionalmente, pode razoavelmente duvidar que haja alguma espécie de Inteligência operando por detrás dos fenômenos naturais. Mas há uma grande distância entre esta crença vaga e geral, e a concepção definida de que tudo na manifestação, desde um sistema solar até um grão de poeira, é governado pela Lei e é parte de um Grande Plano, que está gradualmente se desenvolvendo no universo, em suas diferentes partes e em diferentes épocas.
A ciência está interessada somente na investigação destes fenômenos naturais e não está preocupada em saber se há ou não um plano por detrás deles. A filosofia apenas pergunta se existe um tal plano. Mas o Ocultismo sabe e afirma, fundamentado no conhecimento direto, que há um Plano por detrás de todo o universo manifestado, e que cada unidade neste vasto esquema, seja grande ou pequena, está executando uma parte deste Plano. Assim como na execução do projeto de um grande edifício o esquema total pode ser dividido em projetos menores com muitas ramificações, cada unidade realizando sua parte em coordenação com as outras, assim também o Divino Arquiteto usa todo o universo manifestado para a execução do Seu Plano, dividindo Seu trabalho entre sistemas solares e planetas que aparecem em diferentes regiões do espaço no correr da vastidão do tempo. Cada unidade neste estupendo esquema preocupa-se somente com a tarefa que lhe compete, embora ela esteja intimamente relacionada com a totalidade do esquema e nele se encaixe de uma maneira perfeita.
É natural que nos perguntemos qual poderia ser o propósito deste poderoso e infinito esquema, e os filósofos têm especulado em vão, desde tempos imemoriais, sobre o “porquê” do universo. O estudante de Filosofia Esotérica compreende que o conhecimento a respeito destas questões últimas está além do alcance do intelecto humano e que, portanto, é inútil procurar por uma solução intelectual do “porquê” da manifestação. Este Grande Mistério do universo está oculto nas profundezas da Consciência Divina e somente aqueles que podem mergulhar profundamente naquele incomensurável oceano de conhecimento podem conhecer diretamente algo deste Supremo Segredo.
Mas há um aspecto deste propósito divino na manifestação que podemos ver e compreender. É que ele provê um campo para a evolução da Vida em todos os seus diferentes estágios. A investigação oculta tem mostrado, definitivamente, que nosso sistema solar é um vasto teatro no qual a Vida está evoluindo em suas miríades de formas e elevando-se, através de diferentes estágios, às alturas de esplendor divino, o qual não tem limites e está completamente além da imaginação humana. Este aspecto do Plano o qual podemos alcançar intelectualmente, e cuja apresentação ao mundo é uma das principais preocupações da Sociedade Teosófica, dá um novo sentido à vida e transforma a história natural e humana, de um panorama sem propósito de mudanças biológicas e sociológicas, num vasto desfile no qual vemos marchando firmemente para a meta a nós destinada. Ninguém que realmente tenha compreendido o significado desta concepção pode deixar de empenhar-se de todo o coração no fascinante trabalho que torna possível a realização deste esquema evolutivo.
Como este Plano Divino, que vemos operando na evolução da vida e da forma em toda a parte, não é uma mera crença piedosa ou uma especulação filosófica, mas, na realidade, é como o funcionamento de uma fábrica moderna, ele naturalmente requer os serviços de um vasto exército de agentes que são responsáveis pelo funcionamento de suas diversas partes e por sua conclusão bem sucedida. Estes agentes são as hierarquias de Anjos e Adeptos que desde os planos mais sutis guiam as forças da Natureza e realizam as mudanças e ajustes nas instituições humanas que são necessárias à operação eficiente e harmoniosa do Plano.
Uma destas hierarquias atuando em nossa Terra é a Grande Fraternidade Branca, a qual consiste de Super-homens que atingiram a Libertação, mas permanecem em contato com a nossa humanidade, para levar adiante o trabalho relacionado ao esquema evolutivo. Todos estes Adeptos, que preferem ser chamados de nossos Irmãos Mais Velhos, ainda que estejam incomensuravelmente acima de nós, não possuem as mesmas características ou capacidades, nem estão fazendo a mesma espécie de trabalho. Eles desenvolveram-se por diferentes linhas e têm diferentes partes do Plano para realizar. Mas como a mais estreita união de consciência e uma sabedoria consumada caracteriza a todos Eles, o estupendo trabalho de guiar e controlar a evolução humana prossegue harmoniosa e eficientemente à medida que as raças vão se sucedendo e as eras passam umas após as outras.
Como os membros desta Hierarquia Oculta constituem o governo interno do mundo e são responsáveis pela evolução ordenada de toda a vida neste planeta, Deles partem os vários movimentos que gradualmente vão mudando as condições no mundo, de acordo com os requisitos do Plano; por Eles são guiadas a ascensão e a queda das civilizações, o desenvolvimento de raças e sub-raças, à medida que estas se sucedem uma após a outra no palco do mundo e provêm as múltiplas condições para a evolução da humanidade. O crescimento desses vários movimentos em diferentes partes do mundo e sua reunião para o conflito ou para a fusão harmônica, vistos do exterior, parecem ser produtos de mero acaso nas mudanças sociais e políticas, mas, vistos com a visão interna, este panorama que o Tempo nos apresenta nada mais é do que o desdobramento do Plano Divino em nossa Terra, guiado e controlado por seus agentes invisíveis por trás do véu dos acontecimentos.
A Sociedade Teosófica é um destes movimentos, lançada no mundo por alguns membros da Fraternidade Branca com um propósito definido. Não podemos pretender conhecer ou compreender qual é este propósito em sua totalidade, mas, pelo que nos foi revelado, está claro que este movimento tem, no momento atual, pelo menos três funções bem definidas, ainda que não especificadas. Estas podem ser assim apresentadas:
1. Dar à humanidade certas verdades mais profundas da vida, que são necessárias para o próximo passo na evolução humana.
2. Instilar certos princípios diretivos universais nas mentes das pessoas em geral, tais como o da Fraternidade, de modo que possa se tomar factível o advento de uma ordem mundial melhor.
3. Prover agentes no mundo exterior que compreendam o Plano de modo geral, podendo assim, conscientemente cooperar com os Irmãos Mais Velhos no trabalho que Eles estão executando para o melhoramento da raça humana.
Deste modo, vemos que a fundação da Sociedade Teosófica é parte de um movimento definido para erguer um canto do véu que, até agora, vinha ocultando da humanidade os mistérios mais profundos da vida e Aqueles que possuem as chaves destes mistérios. Provavelmente, chegou o tempo de dar à humanidade uma oportunidade de cooperar diretamente com seus Irmãos Mais Velhos que, desconhecidos e não reconhecidos, têm por eras guiado a humanidade, educando-a e trazendo-a ao presente estágio da evolução. Mas esta cooperação pode tomar-se uma realidade definida e uma força na direção do progresso somente quando as verdades da Filosofia Esotérica permearem o pensamento mundial e realizarem as mudanças fundamentais necessárias na vida e nos pontos de vista do homem médio. No presente momento, no mundo, a Sociedade Teosófica é um pequeno núcleo de tais homens, que estão tentando compreender estas verdades e preparando-se, consciente ou inconscientemente, para este trabalho em conjunto com seus Irmãos Mais Velhos, agora e no futuro. Assim que este núcleo cresça e a maior influência da Sociedade Teosófica trouxer condições mais favoráveis ao mundo para a aceitação destas verdades, pode-se esperar que os Irmãos Mais Velhos darão uma direção mais direta nos assuutos do mundo, tomando-se assim possível para nós avançar mais rápida e facilmente para a meta a nós destinada.
Assim vemos que a Sociedade Teosófica não é exatamente como as outras sociedades espalhadas pelo mundo afora, nas quais um grupo de pessoas se associam e trabalham em conjunto para atingir um objetivo definido. Como outras sociedades, ela também tem um trabalho definido a fazer no mundo, isto é, o estudo e a disseminação de verdades concernentes aos problemas mais profundos da vida. Mas ela tem outra função muito mais importante, e esta é a de servir como um agente direto no trabalho dos Irmãos Mais Velhos para a reforma e regeneração do mundo.
Esta última função da Sociedade Teosófica é muito importante e deveria ser perfeitamente compreendida por todo membro que queira tomar parte ativa em seu trabalho. Pode haver alguns membros em nossa Sociedade que preferem pensar nela como uma mera associação para o estudo e disseminação de certas idéias, que não aceitam este ponto de vista de sua ligação com os Irmãos Mais Velhos, e que podem mesmo nem acreditar na existência de tais seres. Tais pessoas têm direito a ter os seus pontos de vista pessoais e elas podem ser membros muito úteis da Sociedade. Mas a grande maioria de seus membros tem convicção definida, baseada em fatos bem comprovados, de que a Sociedade Teosófica não é um mero corpo acadêmico, mas um instrumento direto dos Irmãos Mais Velhos através do qual esperam realizar mudanças definidas no mundo, com o conhecimento e a cooperação de seus membros.
Esse fato, da ligação vital da Sociedade com Aqueles que são os verdadeiros guias da humanidade, confere uma dignidade especial ao nosso trabalho, tangenciando quase o sagrado, e dá à maioria de seus membros ativos aquela inspiração e entusiasmo que são tão necessários numa tarefa desta natureza. Isso os habilita a permanecer firmes e imperturbáveis nas crises periódicas que ocorrem na Sociedade e às vezes abalam-na até suas fundações. Eles sentem, em tais ocasiões, que sua lealdade aos Grandes Seres e aos princípios universais que Eles corporificam, transcende quaisquer diferenças que possam surgir com relação aos métodos de trabalho e, portanto, aconteça o que acontecer, não desertam do trabalho da grande causa que a Sociedade representa. O vasto Plano lá está, e cada membro pode planejar seu próprio trabalho cuidadosamente, e executá-lo da melhor maneira que lhe seja possível, sabendo que quaisquer que sejam suas limitações, ele de algum modo será usado no trabalho muito maior que os Irmãos Mais Velhos estão executando, incessantemente, para o soerguimento da humanidade.
FONTE:
      TAIMNI, I. K. Princípios de trabalho da Sociedade Teosófica. Trad. Milton Lavrador, Rev. Marina Vollares Lenz Cesar. Brasília: Ed. Teosofica, 1994. 135 p.

Preciosidades que o tempo nos reserva...

Pois é, neste feriadão de tempo incerto, chuva e frio nada melhor do que procurar conforto em uma boa leitura. Por sinal, boas leituras já que acabei concluindo dois saborosos livros.  “Variações sobre o prazer” de Rubem Alves e “Rimbaud na África” de Charles Nicholl.
O de Rubem Alves revelou-se uma pequena paixão, daquela em que não queremos abrir mão. Cada arranjo de seu pensamento se revelou, realmente, uma pequena degustação para o prazer dos sentidos, dos pensamentos e do espírito.
Justamente por causa do fim do livro me vi querendo continuar o que havia terminado. Manter-me ligado em uma emoção boa e pura. Fui, então, em busca de outras opções no cardápio de meu “restaurante” particular, minha pequena biblioteca a quem intitulei afetivamente como sendo; “O meu cantinho”.
O livro sobre a vida do poeta Rimbaud assim como o de Rubem Alves, me levou para uma viagem, me fez acompanhá-lo na trajetória de sua vida, intensa e aventureira. Espírito inquieto, alma cigana, a procura de sentido, de um sentido que imaginou ter perdido quando saiu de Paris.
O livro procura retratar seus últimos 11 anos, exatamente aqueles referentes ao período que passou na África como comerciante de armas e de outros produtos, sempre se movimentando pelos países africanos no meio de caravanas  e na companhia daqueles a quem aprendeu a respeitar. Aprendeu a língua árabe, o Corão a ponto de discutir sobre a religião e sobre o Islã.
Um jovem em busca de sua melodia.
Nunca parado, sempre se movimentando, se locomovendo , se navegando.
Acompanhamos o autor pelos locais por onde Rimabud passou, o jovem, o homem, o homem novo, de nova identidade. Em cada casa, sob cada telhado, temos a sensação de que a qualquer momento vamos encontrá-lo. Provavelmente ele nos perguntaria sobre o que queremos comprar, o que precisamos enviar, para onde queremos ir e que negócios podemos fazer.
Uma alma angustiada mas sem mêdo.
Como imaginá-lo com medo, se só enfrentou todas as adversidades em uma terra estranha longe da família e sem amigos.
Tornou-se em algo para o qual não se programou. Se reinventou.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Voltando ao Fernando, grande Pessoa...

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza.
Algumas mal se veem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal tocas as flores
E que só não sabemos que passa
porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Fernando Pessoa, Obra poética, p.218. Do livro "Variações sobre o prazer - Rubem Alves

O que é meu guardei para você?

Ontem vendo um filme, “Repo Man – O Resgate de Órgãos” que conta a história do comércio de órgãos em um futuro onde as empresas têm modelos de máquinas para cada situação de saúde como; novos olhos, novo coração, novo rim, novo tudo.  As pessoas que adquirem um destes produtos passam a pagar uma mensalidade pelo uso. Caso não consigam pagar, a União (Estado) manda os chamados “coletadores” que recuperam o órgão e a pessoa morre. Não sei se estamos tão distantes de um cenário destes.
Bem, em uma cena o antigo “coletador” que virou um transplantado, vira de uma hora outra, de caçador em caça, está tendo um diálogo com uma mulher com quem está vivendo um romance. Ele pergunta; “o que você tem de aparelhos em você? Ela vai enumerando tantos itens que ele pergunta”; o que não é aparelho?”e ela responde; “Meus lábios” e o beija como se dissesse; “estes são teus”.
Tantas associações com comércio de órgãos, falta de acesso a medicamentos desenvolvidos pela indústria, indústria da beleza onde rifamos o que somos para adquirir a imagem de algo que não existe na promessa de uma “eterna juventude” que nunca vai chegar...
Fiquei pensando e sentindo esta resposta; “Só tenho os meus lábios e estes são teus”. Ali naquele instante, nada mais importava que não o afeto, o amor, a liga que dá sentido a humanidade dos homens ou nos homens. O que temos de mais valioso em nós que podemos dar ao outro em troca de nada? O que nos sobre se tirarmos a casca que não somos?
Uma frase tão simples com tantas interpretações. Tenho algo que é só meu e que ofereço a ti como prova de meu amor e da vontade de querer comungar contigo. Temos tantas coisas boas que se escondem nas nossas roupas, na nossa máquina, nossos sentidos...
Às vezes tudo pode ser tão pouco.
Pode durar a eternidade de um sorriso, de um olhar, de um abraço.
O que é meu que dou para você?

Abra os olhos e vá dançar

Acordei querendo dormir,
levantei querendo deitar.
Convidei-me ao novo dia,
à um novo despertar.
Todo dia tem a festa do novo dia, de algo que ele pode nos mostrar.
Sempre acontece do lado de fora,
Das nossas trancas, portas e janelas.
A festa do novo dia sempre acontece,
No mesmo horário e em todo lugar.
Novos convidados,
Novas músicas,
Novos tons,
Novas melodias, às vezes da mesma música que escutamos há tanto tempo.
A vantagem, é que sempre somos convidados sem convite.
Na verdade nem precisamos
Pois a festa é aberta e acontece em todo lugar.
Só tem uma condição,
Para ir tem que levantar,
Abrir os olhos e despertar.
Vamos,
Levante do ontem, deixe ele na companhia do passado que não quer sair do lugar.
A vida já foi e ele ficou
Não pode acompanhar.
Levante e beije o agora, pois o futuro ainda não chegou
E quando chegar, já será tempo do agora,
Bem na hora de recomeçar.

T.S.Eliot para alma

A Áquila paira no topo dos Céus,
O Órion, com seus cães percorre o seu circuito.
Ó revolução perpétua de estrelas fixas,
Ó eterno retorno das mesmas estações,
Ó mundo de primavera e outono, de nascer e morrer!
O círculo sem fim da idéia e ação,
De invenção sem fim, de experimentação sem fim,
Traz conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade;
Conhecimento da língua, mas não do silêncio;
Conhecimento de palavras, e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento nos leva mais próximos da nossa ignorância,
Toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte,
Mas uma proximidade da morte que não é proximidade de Deus.
Onde está a vida que perdemos ao viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?
Os círculos dos Céus em vinte séculos
Levam-nos para mais longe de Deus e para mais perto do pó.

The Complete poems and Play. P.96 T.S.Eliot.
Tradução de Rubem Alves


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Para minha rainha, Cristina

Não tenho que me esconder do amor que nasceu em mim
Repentino e dilacerante
Rompendo minhas angústias e vencendo minhas negações
Não posso esconder algo que me deu vida
Que me deu a possibilidade de renascer, descobrindo a nova vida
Que mora em cada novo amor que nos acontece
Não posso guardar o que a vida me revelou
No livro da minha alma
Em palavras que o vento soprou
Não posso remar contra maré
Pois se foram tuas vagas ondas
Que me aportaram na ilha de teu ser
Teu coração, teu corpo, tua alma,
Terras novas esperando germinação
Trazendo o sabor do pecado
Revelado na pureza do segredo segredado
Nas noites e tardes
De um tempo congelado no ar
Em que parecia não haver amanhã nem novo dia
Não posso mais esconder
Aquilo que tenho aprendido a amar.
Não posso te esconder de meus olhos
Que aprenderam a por ti chorar
Não posso mais me enganar
Só te amar.

Ternura - Vinícius de Moraes


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Poemas de amor - Mário Quintana

Amar:

Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei...

O amor é quando a gente mora um no outro.

Resumo do Livro "A Era do Vazio" de Gilles Lipovetsky.

IDÉIA CENTRAL DO LIVRO:

O enfraquecimento da sociedade, dos costumes, do indivíduo contemporâneo da era do consumo de massa, a emergência de um modo de sociabilização e de individualização inédito, numa ruptura como que foi instituído a partir dos séculos XVII e XVIII.
O autor considera o conceito de personalização como um correspondente ao estímulo à uma sociedade baseada na informação e no estímulo das necessidades. Menos controle e mais flexibilidade das relações humanas levando cada vez mais para o espaço público as emoções privadas e mais íntimas.

É considerada uma nova forma da sociedade se organizar na qual as instituições e guiam mais pelos desejos, livre dos regulamentos e das regras embora esta nova ordem seja, em si, uma nova regra estabelecida. No lugar do indivíduo submetido às regras sociais, há um estímulo desenfreado ao “direito de ser ele mesmo” em detrimento das relações com o outro e com a sociedade. É o chamado direito de ser si mesmo, de aproveitar a vida ao máximo levando a uma super valorização da personalização do indivíduo em uma outra forma de individualismo.

CONCEITO DE SOCIEDADE PÓS-MODERNA


A sociedade pós-moderna é aquela em que reina a indiferença de massa, no qual domina o sentimento de repetição e estagnação, na qual a autonomia particular avança por si mesma, em que o novo é acolhido do mesmo modo que o velho, em que a inovação se torna banal, em que o futuro não é mais assimilado a um progresso inelutável. A sociedade moderna era conquistadora, a creditava no futuro, na ciência, na técnica.

Na sociedade pós-moderna, a confiança e a fé no futuro se dissolvem, ninguém mais acredita nos amanhãs radiosos da revolução. O conceito de revolução desaparece ante uma nova ordem mais pausterizada.
Na sociedade pós-moderna, as pessoas querem viver o momento atual, aqui e agora, querem se conservar jovens e não pensam mais em forjar um novo homem. A sociedade pós-modernidade tem mais ídolos ou tabus, é o vazio que predomina.

A cultura pós-moderna é voltada para o aumento do individualismo, diversificando as opções de escolha, cada vez mais opções de escolha sobre tudo em uma sociedade de consumo levando a perda de uma visão crítica sobre os objetos e valores que estão a nossa volta. É uma cultura da personalização. Individualismo total. Os desejos individualistas passam a ter mais valor do que os desejos e interesses de classe, fazendo com que se enfraqueça a perspectiva de movimentos sociais e de vida coletiva. Cada vez mais se criam nichos específicos sociais onde cada um encontra o seu par de acordo com os próprios interesses que acabam por fortalecer esta visão pessoal em detrimento do social. Desejo de estar entre idênticos, junto aos demais indivíduos que compartilham as mesmas preocupações imediatas e circunscritas. Narcisismo coletivo: parecemos-nos porque somos semelhantes, porque temos os mesmos objetivos existenciais. É uma sociedade mais caracterizada pela informação e pela expressão.

O VAZIO


Indiferença aos conteúdos, a comunicação sem finalidade e sem público, o desejo de se expressar, de se manifestar a respeito de nada. Comunicar por comunicar, expressar-se sem qualquer outra finalidade a não ser expressar-se e ser ouvido por um micro-público, esta é a lógica do vazio. O isolamento do ser social e a valorização do ser individual.

CAPÍTULO 1 – A SEDUÇÃO NÃO PÁRA


O mundo do consumo assume preponderância com ampliação cada vez maior das opções de produtos em todos os campos, uma massificação das informações privilegiando fortemente a diversidade levando as pessoas a acreditarem que ao realizarem uma escolha se tornam diferentes dos demais quando na verdade fizeram uma escolha teleguiada e orientada. A sociedade pós-moderna privilegia a diversidade criando a sedução de que oferecendo mais você escolhe melhor. Saímos de uma vida individual para uma vida de combinações, um self-service de emoções e opções que vão se combinando indefinidamente.
Os dispositivos de comunicação que conectam as pessoas, quebram as barreiras da distãncia, valorizam novos arranjos de trabalho como o trabalho em casa, na verdade vão isolando as pessoas e impedindo o contato social, com a diversidade de emoções e interações que isto implica. Ficamos isolados e reféns dos meios de comunicação.

Um dos objetivos da sedução é o de personalizar-psicoloogizar o indivíduo. Cada qual é cada vez mais estimulado a cuidar e ser responsabilizado pela própria saúde e pela ausência dela. É a cultura das emoções que vão desplugando o indíviduo do seu entorno social e das relações, por meio de uma interiorização da sensação de querer sentir mais, das sensações imediatas, da “viagem sensorial”.

A sedução é a destruição do social por um processo de isolamento que não precisa mais de um controle social para realizar esta operação. Esta é feita pelos processos de comunicação tecnológicos atuais e de uma overdose de informação.

Resumindo, no reinado da mídia, dos objetos, e do sexo, cada qual se observa, avalia-se, volta-se mais para si mesmo à espreita da sua verdade e do seu bem-estar, cada qual se torna responsável pela própria vida e deve administrar da melhor maneira o seu capital estético, afetivo, psíquico, erótico...

Perda do poder do Estado por meio de uma descentralização das decisões cada vez mais acentuada para o nível local e regional. Modificação da lógica do poder clássico por um sistema de decisão informatizado com uma maior circulação de informação por meio de várias mídias.

Self-service libidinal: banalização da pornografia, culto a experimentação do corpo,a  exibição do corpo. O corpo deixa de ser visto como uma máquina e passa a ser cuidado, amado e voltado para exibição. Isolamento do corpo e da interação dos processos socais. Ninguém tira mais ninguém para dançar, não existe mais o jogo da conquista, todos vão para as danceterias e dançam sozinhos por meio da música eletrônica, que entorpece e isola.


OUTRAS CONSEQÜÊNCIAS DA SEDUÇÃO


A liberalização da sexualidade por meio da banalização do sexo, a mulher passa a ter sexo por toda parte.
Silêncio e morte do analista. Todos nós somos analisadores, ao mesmo tempo em que somos interpretes e interpretadores, sem porta ou janela.

CAPÍTULO 2 – A INDIFERENÇA PURA


O autor estabelece o conceito de deserto para exemplificar o isolamento e a indiferença na sociedade pós-moderna. Indiferença imposta sem resistência social em função da massificação das informações. As pessoas não acreditam mais na Igreja, nos governos, vão sendo esvaziados de sua consciência crítica a partir do esvaziamento das estruturas sociais, como a família, o exército, o trabalho...Tudo é liquefeito, não há mais regularidade, tudo é flexível, instável e incerto.

O autor designa este processo como uma onda de desafeição que se propaga por todo lado despindo das instituições de sua grandiosidade e simultaneamente de seu poder de mobilização social e emocional.

Tudo isto sem que haja consciência de que este processo esteja em andamento. Todos absorvem a nova lógica de forma passiva, sem reclamar ou se revoltar. O vazio de sentimentos e o desmoronamento dos ideais não trouxe, como era de se esperar mais angústia, mais absurdo e mais pessimismo. Essa visão reflete o aumento da apatia de massa.

Desconectando o desejo dos arranjos coletivos, fazendo as energias circularem, controlando os entusiasmos e as indignações relativas ao social, o sistema convida ao repouso, ao desengajamento emocional. Há uma ausência de sentido. É como se nos dias atuais pudesse se viver sem finalidade e sem sentido. A indiferença cresce, como por exemplo, no ensino, no qual, em alguns anos e com uma velocidade relâmpago, o prestígio e a autoridade dos professores desapareceram quase que completamente. Hoje em dia a palavra do Mestre deixou de ser sagrada, tornou-se banal e situa-se em pe´de igualdade com a palavra da mídia e o ensino se tonou máquina neutralizada pela apatia escolar feita de atenção dispersa e de ceticismo desenvolto em relação ao saber. Este desafeto pelo saber é bem mais significativo do que o tédio dos estudantes, que é variável. OS JOVENS VEGETAM SEM GRANDE MOTIVAÇÃO OU INTERESSE.

A apatia responde à pletora de informações, a sua velocidade de rotação, assim que registrado um conhecimento é imediatamente esquecido, expulso por outros ainda mais sensacionalistas, cada vez mais informações, cada vez mais depressa...

Não há aqui fracasso ou resistência ao sistema, a apatia não é um defeito de socialização, mas sim, uma nova socialização suave e econômica, uma descontração necessária ao funcionamento do capitalismo moderno enquanto sistema experimental acelerado e sistemático. ANEMIA EMOCIONAL.

O homem indiferente não se apega a nada, não tem certeza absoluta, adapta-se a tudo, suas opiniões são suscetíveis de modificações rápidas; para atingir esse grau de socialização, os burocratas do saber e do poder têm a oferecer verdadeiros tesouros de imaginação e toneladas de informações.

SUICÍDIO E DEPRESSÃO

O suicídio se torna incompatível de certa maneira incompatível com a era da indiferença. Por sua solução radical ou trágica, o suicídio não corresponde ao estado de indiferença. No horizonte do deserto se delineia menos a autodestruição e o desespero definitivo do que uma patologia de massa, cada vez mais banalizada; depressão.

O tempo em que a solidão designava as almas poéticas e excepcionais terminou, aqui todos os personagens a conhecem com a mesma inércia.nenhuma revolta, nenhuma vertigem mortífera a acompanha , a solidão se tornou um fato, uma banalidade com a mesma importância dos gestos cotidianos.

Não satisfeito em produzir isolamento o sistema engendra seu desejo, o desejo impossível que, no instante em que é alcançado, revela-se intolerável: o indivíduo quer ser só, sempre e cada vez mais só, ao mesmo tempo em que não suporta a si mesma estando só. A esta altura o deserto já não tem mais princípio ou fim.

CAPÍTULO 3 – NARCISO OU A ESTRATÉGIA DO VAZIO

O narcisismo designa o surgimento de um perfil inédito do indivíduo nas suas relações consigo mesmo e com o seu corpo, com os outros, com o mundo e com o tempo no momento em que o “capitalismo” autoritário cede lugar a um capitalismo hedonista e permissivo.

O homo politicus da lugar ao homo psychologicus,
Conceito da sociedade pós-moderna de viver o presente, nada mais do que o presente, não mais em função do passado e do futuro: é esta perda do sentido da continuidade histórica. O sentido histórico foi abandonado, da mesma maneira que os valores e as instituições sociais.

O narcisismo abole o trágico e aparece como uma forma inédita da apatia feita de sensibilização epidérmica ao mundo e, ao mesmo tempo, de indiferença profunda em relação a ele: paradoxo que explica parcialmente a pletora de informações pela qual somos assaltados e a rapidez com que os acontecimentos vinculados pela mídia de massa se substituem, impedindo qualquer emoção duradoura.

Longe de derivar de uma “tomada e consciência” desencantada, o narcisismo é o efeito do cruzamento entre uma lógica social individualista hedonista, impulsionada pelo universo dos objetos e dos sinais, e uma lógica terapêutica e psicológica, elaborada desde o século XIX a partir da aproximação psicopatológica.
 No momento em que o crescimento econômico perde fôlego, o desenvolvimento psíquico toma impulso, no momento em que a produção é substituída pela informação, o consumo de consciência se torna uma nova bulimia: ioga, psicanálise, expressão corporal, zen, terapia primal, dinâmica de grupo, meditação transcendental, à inflação econômica respondem a inflação psi e o formidável impulso narcisístico que ela produz. Narciso identificado como o homem psicologicus.

O narcisismo, nova tecnologia de controle suave e autogerado socializam dessocializando e coloca os indivíduos de acordo com um social pulverizado, glorificando o reino da expansão do Ego puro. Uma busca interminável de si mesmo. Como o espaço público se esvazia emocionalmente por excesso de informações, de solicitações e de estímulos, o Eu perde suas referências e sua unidade por excesso de atenção: o Eu se tornou um conjunto impreciso.

O CORPO RECICLADO

O medo atual de morrer e de envelhecer faz parte do neonarcisismo. Nos sistemas personalizados, então resta apenas durar o máximo possível e divertir-se, aumentar a confiabilidade do corpo, ganhar tempo e ganhar a “corrida” contra o tempo. Permanecer jovem, não envelhecer: é o mesmo imperativo da funcionalidade pura, o mesmo imperativo da reciclagem, o mesmo imperativo da dessubstanciação que impede a manifestação dos estigmas do tempo a fim de dissolver as heterogeneidades da idade.

O corpo psicológico substituiu o corpo objetivo e a tomada de consciência do corpo a respeito de si mesmo tornou-se a própria finalidade do narcisismo. O culto ao corpo leva a uma cultura da personalidade.
O interesse febril que temos pelo corpo não é, de modo algum, espontâneo e “livre”, pois obedece a imperativos sociais, tais como linha, forma, orgasmo...

UM TEATRO DISCRETO

O narcisismo enfraquece a capacidade de lidar com a vida social, torna impossível toda distãncia entre o que se sente e o que se exprime. É aí que se encontra a armadilha, pois quanto mais os indivíduos se libertam das regras e dos costumes em busca de uma verdade pessoal, mais seus relacionamentos se tornam fratricidas e associais. Sempre exigindo mais imediatismo e mais proximidade, esmagando o outro sob o peso das confissões pessoais, deixamos de respeitar a distância necessária para manter o respeito pela vida particular dos demais: o intimismo é tirânico e incivilizado. A civilidade é a atividade que protege o eu dos outros e nos permite o prazer a companhia das demais pessoas.

A sociabilidade exige barreiras, regras impessoais que são a única coisa capaz de proteger os indivíduos uns dos outros; onde, ao contrário, reina a obscenidade da intimidade, a comunidade viva se despedaça e as relações humanas se tornam destruidoras.

A fraternidade nada mais é do que a união de um grupo seletivo que rejeita todos aqueles que não fazem parte dele....A fragmentação e as divisões internas são o produto da fraternidade moderna.

APOCALIPSE NOW

O sucesso não tem mais do que um significado psicológico: a busca da riqueza não tem qualquer outro objetivo a não ser excitar admiração ou inveja.As relações humanas, públicas e particulares, tornaram-se relações de domínio e de conflitos baseados na sedução fria e na intimidação.O narcisismo tempera a selva humana. O que importa no momento é ser absolutamente si mesmo, desenvolver-se independentemente dos critérios do outro. Resta apenas a vontade de se realizar à parte e se integrar nos círculos de convívio ou de calor humano que se tornam satélites psi de Narciso, suas ramificações privilegiadas.

O conflito de consciências se personaliza, está menos em jogo a classificação social do que o desejo de agradar, de seduzir – e isto, por um longo tempo, se possível – o desejo de ser ouvido, aceito, protegido, amado. É por isto que hoje em dia há menos agressividade, domínio e servidão nos relacionamentos e conflitos sociais do que nos relacionamentos sentimentais de pessoa a pessoa.

24 MIL WATTS

O princípio de realidade foi substituído pelo princípio de transparência que transforma o real em um lugar de trânsito, um território no qual o deslocamento é imperativo: a personalização é um lance de circulação.

Climatizado e saturado de informações, o real se torna irrespirável e condena ciclicamente a viajar: mudar de ares, ir não importa para onde desde que hakja movimento traduz essa indiferença que hoje em dia afeta o real. Todo nosso ambiente urbano e tecnológico é organizado para acelerar a circulação dos indivíduos, entravar a fixação e, assim, pulverizar a sociabilidade: O espaço público se tornou um derivado do movimento.

Circulação, informação, iluminação trabalham para um mesmo enfraquecimento do real, o que por sua vez, reforça o investimento narcisístico: uma vez o rela tornando-se inabitável, resta o dobrar-se para dentro de si mesmo, o refugiar-se na autarquia, que a nova voga dos decibéis, dos fones de ouvido e dos concertos pop tão bem ilustra.

Hoje em dia o barulho e vozes da vida se tornaram parasitas, é preciso identificar-se com a música e esquecer a exterioridade do real. Os adeptos de corrida praticam seu esporte plugados em aparelhos de música, os automóveis vêm com som de 100W as discotecas, os concertos pop, toda uma civilização que ultimamente vem fabricando, como dizia o lê Monde uma geração de surdos, jovens que perderam 50% da capacidade auditiva. Indiferença pelo mundo.

O VAZIO

se pelo menos eu pudesse sentir alguma coisa! Esta frase traduz o “novo” desespero que aflige um número cada vez maior de pessoas”.
Os paciente não sofrem mais de sintomas fixos, mas, sim, de perturbações vagas e difusas; a patologia mental obedece às leis do tempo cuja tendência é a redução das rigidezes assim como a liquefação das referências estáveis. Impossibilidade de sentir, vazio emotivo, a dessubstancialização a esta altura está se completando, revelando a verdade do processo narcisístico como estratégia do vazio.

O medo de se decepcionar e o medo das paixões descontroladas traduzem o nível do subjetivo a que C. Lasch chama de The Flight from feeling a fuga diante do sentimento.

A liberalização sexual, o feminismo, a pornografia trabalham para uma mesma finalidade: erguer barreiras contra as emoções e manter à distãncia as intensidades afetivas. Fim da cultura sentimental, fim do happy end, fim do melodrama e surgimento de uma cultura cool em que cada qual vive num bunker de indiferença ao abrigo das próprias paixões dos outros.

O sentimentalismo sofreu o mesmo destino que a morte: tornou-se um incomodo exibir as próprias emoções, declarar ardentemente uma paixão, chorar, manifestar com demasiada ênfase os impulsos interiores. Como com a morte, o sentimentalismo se tornou embaraçoso, trata-se de manter a dignidade em questões de afeto, quer dizer, manter a discrição.

Deste modo, o que caracteriza nosso tempo é menos a fuga diante do sentimento que a fuga diante dos sinais de sentimentalismo.
Quanto mais a cidade desenvolve as possibilidades de encontros, mais os indivíduos se sentem sós, quanto mais as relações se tornam livres, emancipadas das antigas restrições, mais rara se torna a possibilidade de conhecer uma relação intensa.

POR TODO LADO HÁ SOLIDÃO, VAZIO, DIFICULDADE DE SENTIR,DE S ER TRANSPORTADO PARA FORA DE SI MESMO, DAÍ UMA FUGA PARA AS “EXPERIÊNCIAS” QUE APENAS TRADUZ A BUSCA DE UMA EXPERIÊNCIA EOMOCIONAL FORTE. PORQUE EU NÃO POSSO AMAR E VIBRAR? DESOLAÇÃO DE NARCISO, MUITO BEM PROGRAMADO EM SUA ABSORÇÃOD E SI MESMO PARA PODER SER AFETADO PELO OUTRO, PARA SAIR DE SI MESMO E, NO ENTANTO, INSUFICIENTEMENTE PROGRAMADO , UMA VEZ QUE AINDA DESEJA UM RELACIONAMENTO AFETIVO.








O sabor e a palavra

Palavra tem sabor? Segundo Rubem Alves, em seu livro "Variações sobre o prazer" , sim, tem e muito. As palavras que se tornam saborosas são aquelas que apenas informam ou transferem um conhecimento acumulado, pretensamente dominado por quem fala.
no mundo atual, cada vez mais, em função do excesso de informação e da possibilidade infinita de novas tecnologias, cada pessoa se entende um autodidata. E o pior, em profundidade.
Palavras com sabor, ao contrário, segundo Rubem, nos provocam os sentimentos e as livres associações psicológicas, emotivas e existenciais que as palavras e seus significados carregam.
Pensando nisto, pensei em uma palavra. Intimidade.
Seria, esta , uma palavra com sabor?
Pelo que ela provoca, sim. A intimidade é uma conquista, um espaço reservado em nós ou no outro, que foi adquirido, que foi concedido, que foi palntado.
E quando plantamos intimidade, podemos colher confiança.
E confiando podemos revelar, nos desfolhar nas mãos próprias e alheias.
Este é  um sentimento necessário nas nossas vidas, pelo menos penso que seja.
o de poder ser , em algum momento, na maturidade de nossa existência, sermos colhidos por alguém.
Foi por isto que pensei em intimidade.
A mesma intimidade que as palavras do autor nos levam a ter com ele.
Obrigado Rubem!