segunda-feira, 25 de maio de 2015

Fernando, esta incrível Pessoa!

Hoje, recordando o passado,
Não encontro nele quem não fui...
A criança inconsciente na casa cessaria,
A criança maior errante na casa das tias já mortas,
O adolescente inconsciente ao cuidado do primo padre tratado por tio,
O adolescente maior enviado para o estrangeiro (mania do tutor novo),
O jovem inconsciente estudando na Escócia, estudando na Escócia...
O jovem inconsciente já homem cansado de estudar na Escócia...
O jovem inconsciente tão diverso e tão estúpido depois...
Não tenho nada de comum com o que foi,
Não tenho nada de igual com o que penso,
Não tenho nada de seu com o que poderia ter sido.
Eu...
Vendi-me de graça e deram-me feijões por troco...
Os feijões dos jogos de mesa da minha infância varrida...
Não! Só quero a liberdade!
Amor, glória, dinheiro são prisões.
Bonitas salas? Bons tapetes? Tapetes moles?
Ah, mas deixem-me sair e ir ter comigo.
Quero respirar o ar sozinho,
Não tenho pulsações em conjunto,
Não sinto em sociedade por quotas,
Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.
Onde quero dormir? No quintal...
Nada de paredes_ só o grande entendimento-
Eu e o universo,
E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fato
Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,
O grande abismo infinito para cima
A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é minha cara,
Onde só os olhos - outro céu- revelam o grande céu subjetivo,
Não quero! deem-me a liberdade!
Quero ser igual a mim mesmo.
Não me capem com ideais!
Não me vistam as camisas de forças de maneiras!
Não me façam elogiável ou inteligível! Não me matem em vida!

Fernando Pessoa.

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