quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Natal! Para pensar no que importa.

Organiza o Natal
Carlos Drummond de Andrade

Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.

Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.

Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso. A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.

A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.

A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.

Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.

O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.

Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.

A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.

O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.

E será Natal para sempre.

Ah! Seria ótimo se os sonhos do poeta se transformassem em realidade.

Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 52.

Muro das lamentações

"Ao Muro Ocidental, também conhecido como Muro das Lamentações, os judeus logo aplicaram muitos dos mitos habitualmente relacionados com um lugar sagrado. Associaram-no com as tradições do Talmude sobre o muro ocidental do Devir, que de acordo com os rabinos,a Shekhinah abandonara e Deus prometera preservar para sempre. Como acreditavam que a Presença morava ali, passaram a tirar os sapatos ao entrar no recinto. Gostavam de escrever pedidos em pedaços de papel e colocá-los entre as pedras, para que pudessem continuar sempre diante de Deus. Afirmavam que a Porta do Céu se situava bem acima do oratório e que as preces ditas ali subiam diretamente para o Trono divino. Conforme o caraíta Moses Yerushalmi escreveu em 1658, "uma grande santidade repousa no Muro Ocidental,a santidade original que o impregnou então e para sempre".
Quando entravam no estreito recinto e contemplavam o muro que se erguia a sua frente, majestoso e protetor, os fiéis sentiam-se diante do sagrado. O muro se tornara um símbolo não só do divino, mas também do povo judeu. Apesar de toda a sua imponência, era uma ruína - um emblema de destruição e derrota. " Do Templo restara apenas um muro", assinalou Moses Yerushalmi, e ele evocava ausência e presença. Quando o tocavam e beijavam suas pedras, os judeus tinham a sensação de estabelecer contato com gerações passadas e com uma glória extinta. Como eles, o muro era um sobrevivente. Chorando ali, os fiéis lamentavam catarticamente tudo que haviam perdido no passado e no presente. Como o próprio Templo , o Muro Ocidental acabaria representando ao mesmo tempo Deus e a identidade judaica".

Livro: Jerusalém,uma cidade, três religiões.
Autor: Karen Amstrong

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Fraternidade

Por onde anda o espírito natalino?
Por onde a paz que não temos desejado?
Por onde o amor, este sentimento tão encolhido em nossos corações?
Por onde a Fraternidade que não nos comove mais?
Por onde você que não tem pensado nestas coisas?
Por onde andamos nós?
Em que ponto da estrada nos perdemos dos significados mais profundos da espiritualidade que sempre guiou a Humanidade na sua busca por aperfeiçoamento?
Não pensamos mais nestas perguntas.
Não nos dedicamos um tempo amoroso ainda que todos os anos, nesta época do ano, nossos corações sejam induzidos a se abrir um pouco mais.
Esta pequena abertura nos é insuflada pelos mistérios da Grande Vida, dos Grandes Mestres e da Grande Fraternidade Branca que emana para Humanidade seus raios de luz e energia.
Em tempos antigos este momento ou instante é chamado do solstício de verão. Após um longo período de frio, escuridão e fechamento (solstício de inverno - 21/06 hemisfério sul)comemora-se o impulso da vida em busca de luz, do calor e do renascimento da vida (solstício de verão 21/12 - hemisfério sul).
Portanto, nesta época de natal, encontramo-nos impelidos para uma maior abertura interna e de boa vontade com o próximo.
Inconscientemente nos sentimos mais propensos a buscar o melhor entendimento, a perdoar, a silenciar e refletir melhor sobre a reconstrução de caminhos e de pontes.
Onde anda este sentimento?
Mais do que o presente, ou, o melhor presente que podemos dar,  a nós mesmos é a possibilidade de desarmarmos os nossos corações e nos deixarmos navegar nesta onda espiritual que nos inflama nesta época.
Desacelerar nossa ânsia por coisas e pensarmos um pouco mais nas pessoas.
Que tal jogar seu GPS fora e deixar-se levar por todas as direções e indicações, todas as ruas, estradas, bairros, cidades, países e mares?
Deixar-se ir por aí levando o bem.
Precisamos soltar nossas amarras.
Desligar nossos celulares.
Deixar morrer esta bateria digital que nos exclui do mundo e da vida.
Estamos vivendo uma profunda solidão.
Estamos isolando as pessoas mantendo-as a uma margem segura de nosso abraço. Não conseguimos pensar mais na possibilidade de nos perdermos nos braços de um outro alguém. 
Faça uma reflexão.
Pense na possibilidade de começar a viver e renascer com o sol.
O sol de uma nova vida!
Feliz Natal!

José Vicent Payá Neto

Realizações!

Faça o bem!
Faça sempre o bem!
Faça a todo instante, em todas as situações e em todos os contextos.
Fazer o bem pode ser contrariar.
Fazer o bem pode ser calar.
Fazer o bem pode ser negar.
Fazer o bem pode ser tudo aquilo que traga o bem estar, a boa conversa, o bom diálogo, as boas emoções, os bons pensamentos e as boas energias.
Fazer o bem é estar no reto caminho da senda espiritual.
Fazer o bem é antes de tudo mostrar a si próprio o que é certo e o que é errado.
O que colabora e o que não colabora com e para a vida.
Fazer o bem é celebrar junto com a natureza o avanço de todas as formas de vida no desenvolvimento da vida, da forma e da consciência.
Somos feito grãos!
Cabemos na palma da mão.
Temos um destino e infinitas possibilidades.
As escolhas serão sempre nossas ainda que a vida não nos deixe escolhas.
Uma porta que se abre, uma janela que se escancara, um teto que desaba, um furacão que passa.
Nada é constante. Toda mudança é contínua.
Tudo nos transforma. Seja no silêncio da nossa alma. Seja no ruído de nossa lamentação.
Obstáculos, pontes, trilhas e atalhos.
Caminhada. Caminhos. Caminhantes.
Ganesha nos acompanha livrando-nos das árvores que caem na nossa frente ou mostrando que não estão ali por acaso.
Será preciso serrá-las, arrumá-las e colocá-las na beira da estrada.
Pode ser que um andarilho que passe pela mesma estrada possa necessitar delas para se aquecer em uma noite fria.
Cada obstáculo superado é uma nova possibilidade que se abre no universo.
Uma estrela que desponta no universo e brilha intensamente na galáxia.
Estrela guia que nos conduz e mantém no caminho do bem.
Do Bem estar e da Fraternidade.
Nossa jornada ou nesta jornada, não estamos desamparados e sozinhos.
Somos todos,
um só!

José Vicent Payá Neto

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Somos de todas as cores!!!

Entre fevereiro e março comemora-se na Índia a chegada da primavera. A vitória do bem sobre o mal. É o Festival de Holi que atrai tantas pessoas de diferentes lugares do mundo.
A chegada da primavera traz, na vida e na natureza, a expectativa da boa renovação. A renovação das estações e a chegada da luz, do calor, de novas cores que representam o renascimento da vida.
Somos como as estações.
Temos nossos climas que oscilam entre intensidade solar e invernais recolhimentos.
Somos assim. São nossas emoções, pensamentos e atitudes que acabam por nos trazer, feito maré a consequência do que plantamos.
Nossa sorte é que a luz intensa que não cessa de brilhar dentro de nós nos convoca a brilhar na vida e no mundo.
Nem sempre respondemos ao seu doce, silencioso e constante chamado. Teimamos em continuar "levando a vida" ou " vivendo do concreto". Tolos pássaros engaiolados que desistiram de voar.
Somos feitos para brilhar!
Somos de cores múltiplas para pintar novos cenários lambuzando de pinceladas de amor e afetividade ao nosso semelhante.
Somos todas as cores!
Somos todos os Deuses!
Somos todas as religiões!
Somos a ausência de todas as religiões!
Porém, 
somos todos essências perfumadas do Divino que habita em nós.
Centelhas de vida evoluindo por eras e eras!
Jogue suas melhores cores na Vida!
Deixe chegar a primavera de sua vida à vida de todos os demais.
Seja o clorido que falta!
Viva!
Seja seu melhor sorriso!
Ainda que possa doer, sua dor será menos doída com a cor do amor que existe em todos nós!

José Vicent Payá Neto

Jerusalém - uma cidade, três religiões

"....Não obstante, os cristãos se consideravam superiores a esse tipo de devoção. Diziam com orgulho que sua fé era puramente espiritual e não dependia de santuários e lugares santos. Sua surpreendente reação à descoberta do sepulcro mostra que os mitos da geografia sagrada estão profundamente arraigados a psique humana.
Um choque repentino ou um inesperado reencontro com um dos símbolos palpáveis de nossa fé e de nossa cultura pode redespertar esse entusiasmo por um espaço sagrado, sobretudo após um período de perseguição, em que as pessoas sofreram  com especial intensidade a ameaça de aniquilação.
Nunca podemos dizer com certeza que superamos estes mitos primordiais: mesmo no mundo científico do século XX não somos imunes a sua atração, como nos demostra Jerusalém. Ao ver o sepulcro do Ressuscitado, os cristãos sentiam o choque do reconhecimento e, pela primeira vez, eram impelidos a arraigar-se num local físico, a construir sua morada no mundo profano, a apropriar-se dessa área sagrada. Esse benéfico elo co  o passado permitiu que se instalassem no centro da Aelia romana,abandonando sua posição marginal e assumindo um lugar totalmente novo no mundo".
Livro: Jerusalém - uma cidade, três religiões.
Autora: Karen Armstrong
Editora: Companhia das Letras

Livro maravilhoso pela reflexão que possibilita sobre a vinculação de cada um, a parir de sua perspectiva religiosa, com o sagrado e sua simbologia espiritual e interna. Cada religião construiu e constrói a partir de valores díspares, este vínculo ao longo da história. Para muitos a ligação não é com a concretude do lugar mas sim o "espaço-lugar"impermanente e imperecível que é edificado dentro do coração.
Cada um tem um lugar e ocupa um lugar.
Este lugar não obrigatoriamente está fora. Na maioria das vezes, o fora e visível, espelha a simbologia imaterial de nossas emoções e espiritualidade mais profundas.
Aquelas que sobrevivem ao tempo. Procure seu lugar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Amor ao Próximo!



Conta-seta-se que, na antiga Judéia, um homem, ferido num assakto perto de Jericó, agonizava à beira da estrada. Passou um doutor da Lei, tinha pressa, não prestou atenção ao ferido, tão perto dos seus olhos.
Outras coisas eram mais importantes do que a vida ou a morte de alguém que ele nem conhecia. Passou um comerciante. Tinha pressa. Os mercados iam fechar, não havia tempo a perder com um desconhe cido fora do mercado.
E passou um samaritano. Os habitantes da Samaria eram em geral desprezados como inferiores. Esse parou. Desceu do cavalo, cuidou das feridas, levou o homem a uma estalagem, pagou pelo tempo em que cuidariam dele até que pudesse voltar. Não o conhecia. Mas o reconheceu.
Ele era o Próximo, o estranho. O homem ferido soube também que aquele era o seu próximo.
Próximos, um para o outro. É como, fortuitamente, acontece o amor. Uma transcendência cuidadosa".

E osque não luta, com o Anjo?
Artigo de Marcio Tavares D'amaral.
O Globo 12/12/2015.

Árvore armada ainda pouquinho.
Que neste e em todos os tempos possamos pensar e sentir mais o amor pelo próximo em nossos corações.
Vamos prestar um pouco mais de atenção a nossa volta e tentar olhar e encontrar nosso peóximo.
Aqui ou em qualquer lugar.
Neste plano ou em outros.
Vamos pensar em fazer o bem!
Não importa a quem.
Feliz Natal a todos!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Um banco qualquer

Me sentindo assim ou precisando de um lugar assim. Talvez, as duas coisas em uma só. Este momento que é de parada, desacelerada e introspecção.
Aparentemente, estamos ao longo de nossa vida cruzando espaços físicos e digitais. Nossas vidas se misturam em tantas conexões que não sabemos mas o significado de quietude. Nossa antiga praça virou uma Ágora digital. Não saímos mais de casa ou caminhamos até a praça mas próxima a procura daquele banquinho para poder sentar e fazer uma leitura ou apenas ficar de bobeira.
Não podemos mais dar bobeira. Tempo passa e a última hastag já nos convoca para mais uma manifestação, mais uma vocalização, mais uma demarcação de território.
Engraçado. Demarcar quando não mais temos ou sabemos onde começam os nossos espaços internos, nossas ruas, cruzamentos, nossas praças, nossos bancos...nossos silêncios.
Manhã? Entardecer? Verão? Inverno? 
Não sei mais.
Nem lembro que praça é esta. Só sei que este interlúdio até a próxima zapeada me dá a chance de parar por aqui, sentar e ficar quieto.
Talvez fique aqui até o anoitecer. Já começo a sentir o vento querendo conversar com minhas histórias, revirando minhas páginas de contos, acabados e inacabados.
Fecho os olhos e não sei se estou no céu, na praça, no bosque ou se já me fui. Sinto os abraços antigos daqueles que já se foram e sinto os abraços de todos aqueles que ainda não chegaram. Meus passados e meus sonhos.
Meu baú!
As folhas parecem ganhar vida a procura da pena que as faça sorrir. Faceira sobre o papel, encontra caminhos caligráficos para descobrir meus segredos e revelar meus sentidos mais ocultos do que revelados.
Aos poucos acho que começo a sorrir.
Parece que me lancei em uma viagem sem fim. Amarrei minha esperança na lua e vou deixar que ela me leve por este universo sem limites.
Assim,
da praça ou do banco,
vou voar pelas nuvens e constelações.
Vou sonhar, para quem sabe, por enquanto
não acordar.


José Vicent Payá Neto


Jerusalém















"O objetivo da procura religiosa sempre foi, na verdade, uma experiência, não uma mensagem. Queremos nos sentir verdadeiramente vivos e realizar o potencial de nossa humanidade, vivendo de modo a estar em sintonia com as correntes mais profundas da existência. Essa procura de uma vida superabundante - simbolizada por deuses poderosos e imortais - inspirou todas as grandes religiões: as pessoas desejavam ultrapassar a mortalidade e a insignificância da experiência terrena para encontrar uma realidade que complementasse sua natureza humana. No mundo antigo, elas achavam que, sem a possibilidade de viver em contato com esse elemento divino, a vida era insuportável".

Livro: Jerusalém - Uma cidade, três religiões
Autora: Karen Armstrong

Com a chegada do período natalino onde nossas emoções se encontram mais abertas e afeitas a sentirem a necessidade que temos de um pouco mais de espiritualidade e menos de materialidade, em que a estrela de Belém que anuncia o nascimento de Jesus nos mobiliza na busca de um sentido para nossas vidas, possamos nós nos dedicarmos a alguns momentos de reflexão interna.

Olhar para dentro de nossos corações e buscarmos o nosso lugar sagrado. Aquele onde nós encontramos silêncio, paz e harmonia. Que possamos ficar ali sentados, em paz e quietos. O tempo suficiente para reconquistarmos o controle sobre nós mesmos.

Que cada um consiga esta oportunidade. Não é fácil em meio a tantas provocações e solicitações externas de consumo. Nosso principal alimento não virá das formas. Virá do sentido!

José Vicent Payá Neto

Vazio


Ontem acordei pensando sobre esta sensação fugidia que fustiga incessantemente a nossa mente e o nosso coração por toda uma vida. A busca incessante pela felicidade.
Este estado de espírito que nos dá a sensação de que tudo está bem. 
Fiz uma retrospectiva da minha vida ponderando meus altos e baixos e buscando ao final chegar a um resultado nos diferentes campos das ansiedades. Realização física, profissional, pessoal e espiritual.
O balanço me trouxe a soma de todas angústias superadas, de todas alegrias conquistadas, de todos os tempos  e estações vividos. O verão quente da vida e o inverno do recolhimento.
O resultado?
Não tenho do que me queixar. 
Então porque ao final destes ciclos de ganhos e perdas, de vitórias e de derrotas, de quedas e superações fica a sensação de um vazio. De uma tela em branco como se faltasse uma tinta a ser jogada.
Porque não estamos acostumados ao estado de paz interna e da falta de uma adrenalina externa que nos coloque novamente em uma roda de expectativas e frustrações.
Como uma droga, vivemos no limite do movimento contínuo. Nos jogando no carrossel intermitente de falsas miragens e objetos a serem perseguidos.
A paz pode ser o vazio. Sim.
Vazio de expectativas. Apenas, uma vida para ser vivida buscando se fazer o melhor, desejando o melhor e trabalhando pelo melhor. Em prol do coletivo, seja, este, físico ou espiritual. Somos uma Humanidade que caminha a longas eras em busca do aperfeiçoamento. A evolução da vida, da forma e da consciência.
Tempo, neste caso, é recurso extremamente relativo. Não existem partidas ou chegadas. Existe o eterno movimento que se recicla e retroalimenta. Portanto, nunca estamos. Não concluímos nossa trajetória com uma nota. Ela está sempre se transmutando. Um portão que sempre se distancia de nossas mãos. Uma ponte que se estende para além das duas margens. Tempo e Espaço!
O espaço em branco no início talvez seja para refletir isto. O vazio da queda em que devemos nos abandonar. A queda na nossa mais profunda religiosidade ou espiritualidade.
Talvez desta forma,
ao cair no colo de Deus, possamos ter a sensação do amparo que tanto procuramos.

José Vicent Payá Neto