terça-feira, 14 de junho de 2016

Rubem Alves - Continuação

Sua descrição da metamorfose pela qual você passa me fez lembrar aquele personagem de um seriado, o Hulk. Normalmente homem simpático e franzino, de repente, quando provocado, ele se transformava num outro, um gigante. Ninguém diria que se tratava da mesma pessoa. Os olhos ficavam estranhos, vidrados, o corpo inchava com músculos descomunais, a pele verdejava, as roupas se rasgavam e ele ficava possuído por uma força e uma fúria incontroláveis. Ainda bem que não é isso que acontece com você, pois, se fosse, sua despesa com o alfaiate seria enorme...


Tudo acontece repentinamente. O conselho de contar até dez não serve para nada. Antes de começar a contagem você está possuído. Tudo em você fica diferente, e os outros o olham com espanto. Mas esse Outro em que você se transformou nem liga. Não há palavra que o segure. É como se fosse uma ejaculação de fúria. Aí, passado o surto, o Outro deixa a cena. Some. E você volta, coberto de vergonha, para o corpo onde o Outro o havia expulsado. É hora de tentar consertar os estragos.
Você sabe pedir desculpas. Isso é uma virtude. Mas também sabe que há coisas que não podem ser consertadas. pode ser que a pessoa magoada pelo Hulk o desculpe, mas é impossível que ela se esqueça do que viu. Ela viu o Outro que mora em você e de que ninguém gosta. Nem mesmo você.
Seu horror é triplo. Primeiro, o horror por aquilo que o Outro, com a sua cara faz.

Segundo, o horror de que os outros o tenham visto daquele jeito monstruoso. Você deve conhecer um brinquedinho, não sei o nome em português. Em inglês é jack-in-the-box. É um cubo de metal com uma manivela. O cubo metálico é bonitinho por fora. Aí, a gente vai rodando a manivela e, de repente, a tampa se abre e de dentro do cubo salta uma cabeça grotesca que nos dá um susto. Vendo o cubo fechado, ninguém suspeitaria da cabeça assustadora que está dentro dele. Pois você é parecido com o jack-in-the-box. Todo mundo fica com medo de rodar a manivela.
Terceiro, o simples horror de que more em você um hóspede desconhecido que está além do seu controle racional. Se conselhos racionais valessem alguma coisa, eu lhes daria vários, e até poderia escrever um livro de autoajuda sobre o assunto. Mas, quando o hóspede desconhecido entra em cena, já é tarde demais para fazer qualquer coisa. Até mesmo os anjos da guarda fogem...

Continua em outro post.

Livro: Sobre demônios e pecados
Autor: Rubem Alves

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