quarta-feira, 15 de junho de 2016

Rubem Alves - final

Com base nos meus conhecimentos híbridos de psicanálise e magia, meu diagnóstico é o seguinte: você sofre de uma possessão demoníaca intermitente. Imagino seu sorriso de incredulidade ao ler isto.

Como é possível que um homem como Rubem Alves ainda acredite em demônios? Demônios são fantasias do imaginário religioso...
De fato, demônios são fantasias do imaginário religioso. As religiões os pintaram como seres repulsivos, com cara de bode, chifres na cabeça, peludos, com rabo, masculinos, genitais em forquilha para penetrar dois orifícios ao mesmo tempo e especialistas em soltar ventilações sulfúricas malcheirosas pelas ventas e partes inferiores. Invisíveis, vagam pelos espaços vazios à procura de ninhos onde botar seus ovos.

Escolhida a vítima, eles se aproximam e por meio de truques sedutores tentam entrar na casa onde desejam se aninhar. Se o dono da casa é bobo e acredita na conversa deles, entram , tomam posse do espaço e não entram, tomam posse do espaço e não saem pacificamente.

Você já deve ter ouvido falar: " Ele ficou fora de si". Se ficou fora de si, quem é que ficou dentro de si? Só pode ser um Outro que não ele. Então, naquele momento, o corpo já não é posse dele. Está sob controle de um Outro, que faz coisas que ele jamais faria.

Nos tribunais se usa falar em " privação dos sentidos" para se referir ao ficar "fora de si", enquanto "um outro" fica dentro de si. Isso quer dizer que a própria linguagem dos juízes e advogados reconhece como real essa situação em que o corpo fica possuído por uma entidade estranha. Assim, se o meu corpo cometeu um crime sob a condição de "privação de sentidos", isto é, enquanto estava possuído por um estranho, eu não cometi. Não sou culpado, não posso ser condenado.

Não descarte os demônios com seu sorriso zombeteiro. Pode ser que o nome e as imagens não sirvam mais. Mas a "coisa" continua a existir com outros nomes. É como um vírus de computador - ele entra sem permissão e faz a maior confusão. Pois assim são os demônios...

Vírus, demônios, dois nomes diferentes para a mesma coisa. Com uma diferença: é mais fácil se livrar dos vírus que dos demônios.

Livro: Sobre demônios e pecados
Autor: Rubem Alves

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