quinta-feira, 2 de junho de 2016

Um pouco de Rubem Alves

A Possessão Demoníaca

Sabendo que em épocas passadas pratiquei a piscanálise, você pediu que eu fizesse o diagnóstico de uma perturbação que o aflige de tempos em tempos.
Li a descrição de seus sintomas com a maior atenção. Você é uma pessoa educada, profissional competente, maduro, generoso, respeitado. Mas, repentinamente, por causa de um pequeno incidente, passa por uma súbita metamorfose. Você deixa de ser o que normalmente é e passa a ser um outro, o Mr.Hyde monstruoso da novela de Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, publicada em português com o título O médico e o monstro.

Para início de conversa, devo informá-lo de que  a psicanálise é um tipo de feitiçaria,e , a se acreditar na opinião de William R. Fairbairn, psicanalista que todo mundo respeita, a função do terapeuta é exorcizar demônios. O paciente, então, é alguém que está  possuído por um poder estranho. O que varia não é a doença, mas a intensidade da febre.
Casos como o seu não são raros e ocupam um lugar destacado na literatura. Há de se levantar a hipótese de que todo mundo é louco por dentro. O que não é de todo mau, tanto assim que Fernando Pessoa dava graças a Deus por ser louco. Loucura e criatividade moram em quartos vizinhos...
Nos tempos em que eu era feiticeiro, estava atendendo uma paciente que disse:
- É eu tenho ideia fraca...
Em tom de brincadeira, interferi:
- Ato lá! Nesta sala somente eu tenho ideias fracas...
Ela ficou espantada e não entendeu. Aí expliquei:
- Eu penso as mesmas loucuras que você pensa...
Levantei-me e a chamei para ver o quadro de Hierondymus Bosch O jardim das delícias. É uma loucura completa. De onde Bosh tirou  aquelas imagens e cenas medonhas? De dentro da própria cabeça. Quer dizer: a cabeça de Bosch era um hospício, morada de loucuras. Mas ele não era louco. Era um artista, pintor. Ele não era louco porque suas ideias eram "fracas"> Ele sabia que não eram verdade. Não eram coisas. Eram criações de sua imaginação. Só existiam na cabeça dele. Agora, se ele pensasse que aquelas imagens e cenas eram realidade, seria um louco varrido. Seu lugar seria o hospício. Em vez disso, seu lugar é o Museu do Prado.


- Eu penso as mesmas coisas estranhas que você - continuei - Mas sei que são só pensamentos, nuvens brancas levadas por uma brisa. Eu mando neles. E com eles faço literatura. Mas seus pensamentos são fortes. as nuvens brancas se transformam em nuvens negras, e chove, com trovões e relâmpagos, e você fica toda molhada. Você não é dona deles. Eles mandam em você. Você fica "possuída" por eles...

* O Jardim das Delícias Terrenas é um tríptico de Hieronymus Bosch, que descreve a história do Mundo a partir da criação, apresentando o paraíso terrestre e o Inferno nas asas laterais. Ao centro aparece um Bosch que celebra os prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimento de culpa. A obra expõe ainda símbolos e atividades sexuais com vividez. Especula-se sobre seus financiadores, que poderiam ser adeptos do amor livre, já que parece improvável que alguma igreja tradicional a tenha encomendado.
Ligada à "utopia" por um lado, mas representando o lugar da vida humana por outro, Bosch revela uma atualidade do seu tempo, dado que essa vida está entre o paraíso e o inferno como se conta no Génesis. O tríptico, quando fechado, tem uma citação transcrita desse livro "Ele mesmo ordenou e tudo foi criado". Entre o bem e o mal está o pecado, preposição cristã. No jardim, painel central, estão representações da luxúria, mensagem de fragilidade nas envolvências do vidro e das flores, refletem um carácter efémero da vida, passagem etérea do gozo, do prazer.
Enquanto "utopia", porque transcreve de modo imaginário na imagem um "real", que mais se aproxima do surreal, e representa, mesmo que toda a sociedade e a cultura ocidental esteja marcada por essa estrutura, uma história “utópica” do seu tempo. Entre um “bem” e um “mal” está a vida e o pecado, de certo foi aplicado, mas no início seria apenas uma projeção.

Trítico fechado

O trítico fechado: A Criação do mundo,óleo sobre tábua, 220 x 195 cm.
quadro fechado na sua parte exterior alude ao terceiro dia da criação do mundo. Representa um globo terráqueo, com a Terra dentro de uma esfera transparente, símbolo, segundo Tolnay, da fragilidade do universo. Há apenas formas vegetais e minerais, não há animais nem pessoas. Está pintado em tons grises, branco e preto, o que se corresponde a um mundo sem o Sol nem a Lua embora também seja uma forma de conseguir um dramático contraste com o colorido interior, entre um mundo antes do homem e outro povoado por infinidade de seres (Belting.[1]
Tradicionalmente, a imagem que amostra o trítico fechado interpretou-se como o terceiro dia da criação. O número três era considerado um número completo, perfeito, já que em si mesmo encerra o princípio e o fim. E aqui, ao se fechar, transforma-se, no número um, no círculo: de novo nos permite vislumbrar a perfeição absoluta e, talvez, a trindade divina. No canto superior esquerdo aparece uma pequena imagem de Deus, com uma tiara e a Bíblia sobre os joelhos. Na parte superior pode-se ler a frase, extraída do salmo 33, IPSE DIXIT ET FACTA S(OU)NT / IPSE MAN(N)DAVIT ET CREATA S(OU)NT, que significa "Ele o diz, e todo foi feito. Ele o mandou, e tudo foi criado". Outros interpretam que pudera representar a Terra após o dilúvio.

Trítico aberto

Ao abrir-se, o trítico apresenta, no painel esquerdo, uma imagem do paraíso onde se representa o último dia da criação, com Eva e Adão, e no painel central representa a loucura solta: a luxúria. Nesta tábua central aparece o ato sexual e é onde se descobrem todos os prazeres carnais, que são a prova de que o homem perdera a graça. Por último temos a tábua da direita onde se representa a condena no inferno; nela o pintor amostra um palco apoteótico e cruel, no qual o ser humano é condenado pelo seu pecado.
A estrutura da obra, em si, também conta com um enquadre simbólico: ao abrir-se, realmente fecha-se simbolicamente, porque no seu conteúdo está o princípio e o fim humano. O princípio na primeira tábua, que representa o Gênesis e o Paraíso, e o fim na terceira, que representa o Inferno.
* Fonte: Wikipédia
Continua no próximo post. 

2 comentários:

  1. Um pouco de sensibilidade para podermos lidar com tempos tão estranhos, violentos e contraditórios.

    ResponderExcluir
  2. Um pouco de sensibilidade para podermos lidar com tempos tão estranhos, violentos e contraditórios.

    ResponderExcluir