sexta-feira, 17 de março de 2017

Memórias


Memória. Uma palavra de tantos significados e lembranças. Lembranças? As vezes perdemos a memória. Por um lapso ou de forma definitiva. Outro dia caminhando pela rua alguém passou por mim deixando um aroma no ar. Nas asas deste cheiro me vi sentado na praia olhando para o mar como tantas vezes fazia quando criança. Acordava cedo e ia caminhando até a praia e ficava ali no final do Posto 6 em Copacabana.
Cheguei a sentir a ouvir o quebrar das ondas serenas na beira da praia. Neste instante era o menino que um dia já fui e não o homem que sou afastados os dois por talvez uns 40 anos. Ou o homem de 40 anos olhando o menino que ainda iria inventar suas histórias e tecer seus caminhos.

 Ventava? Não. Tinha aquele tempo parado no ar coberto pelo manto azul do céu e as cores do mar e da areia. Memória. Para onde tu me levas. De lampejo em lampejo chego ao meu filho. menino pequeno que me faz companhia na praia. Crianças que se reencontram em gerações separadas. 
Tantas idas na praia apenas para caminhar, nadar e brincar. Amigos de infância talvez.
Hoje, a praia esta lá mas já não vamos juntos com tanta frequência.
O menino virou rapaz e eu, já não mais criança, fico a olhar.
Memória!
Nossa mente tem tantos quartos. Alguns com porta e janela. Outros com varanda a beira mar. Lá nos esticamos na rede a balançar. Para lá e para cá queremos mais e voar. Vi minha mãe e meu pai perderem a memória. Minha mãe aos poucos e meu pai do dia para noite. Memória e lembranças. 
Lembro de ficar com ela no seu quarto dando ordem as roupas. Separando por cor. Marcando com bilhetes em prateleiras abertas.
A razão vinha e fugia em minutos. Não era mais possível lembrar. A ordem não fazia mais sentido e o sentido ganhava novas cores. Um RE sentido em um mundo distante. Uma ordem? sim. Não a minha.
Assim foi com minha mãe como havia sido com minha avó materna. Volete! Era assim que eu a chamava. Uma mistura de Arlete que era seu nome com Vó. Seu quarto e uma das minhas melhores lembranças. Sua cama sempre quentinha e suas mãos em nossas cabeças sempre oferecendo um afago lento e persistente. A noite passava calma e, deitados, víamos as sombras dos carros da rua passando pelo teto do quarto. 
Memórias! Mulheres! Abraços!
Tudo começou com um aroma que passou pelo ar deixando suas trilhas a me guiar.
Guiando, chego ao ultimo encontro com as duas. Cada encontro distantes anos um do outro.
A lembrança que tenho é de que a memória volta. Por algum motivo ela volta.
Minha avó já estava em uma casa de repouso e totalmente ausente.
Um dia em uma tarde de sol fui visitá-la. Fiquei ali conversando com alguém que só existia na minha memória afetiva. Na hora de ir embora ela me olhou, riu e recordou o neto que estava diante dela.
Ao chegar em casa soube que ela havia falecido.
Com minha mãe também. No final ela foi morar com meu irmão mas antes de entrar no carro olhou para trás e sorriu mandando um beijo. A memória afetiva voltou.
Pois é...
Como explicar a relembrança? Tem razões que a própria razão desconhece. A lembrança veio feito o aroma que me chegou pela rua. Veio por seus próprios caminhos e passou deixando a marca do que passou mas estava ali, ainda no meu coração.
Portanto, assim são as memorias.
Fisicamente podem se desmanchar no ar mas afetivamente estão guardadas em algum lugar aquecidas pelo coração. A árvore da Vida não seca, floresce!



Nenhum comentário:

Postar um comentário