segunda-feira, 3 de julho de 2017

Teatro da vida


Estava procurando uma imagem que pudesse ter relação com a expressão "entulhos emocionais" e acabei encontrando esta frase acima. Gritamos nem sempre de felicidade. Gritamos mais por nossos aborrecimentos do que por nossas realizações.Aprendemos, desde cedo a ser econômicos com nossa alegria.
Escutei muitas vezes quando pequeno, adolescente e adulto a frase; " para que tanta alegria e riso?". Claro que ninguém sobrevive sem algum nível de encolhimento emocional a tanta castração. É por isto que como diz a frase acima, a outra metade é silêncio. Os silêncios se acumulam em uma sinfonia sem nota ou acorde. Vamos adestrando nossa balança emocional. Calibrando as medidas. Tentando estabelecer um peso que gere equilíbrio permanente. Aceitação social.

A redoma começa cedo quando vamos inibindo nossos filhos quanto a sua curiosidade. Criamos os medos, tornamos as florestas mais escuras e ameaçadoras e tornamos a nossa casa e presença física sinônimo de segurança.
Ouvimos calados as histórias que nos contam e recontamos as mesmas histórias aos nossos filhos. A saudade que sentimos da infância muitas vezes é esta sensação de segurança e de estabilidade perdidas na vida madura para além das portas e janelas de casa.
O que era aventura virou solidão.
Invocamos as lembranças de uma infância que nos moldou de alguma forma.
Junto com a segurança as imagens esquecidas trazem retalhos de emoções muitas vezes guardadas a sete  chaves.

As flores ficaram pelo caminho. Estão ressecadas. O tempo parou.
Se voltarmos a olhar para trás corremos o sério risco de voltarmos a ser uma criança que não desabrochou, murchou e ficou lá esquecida na memória apagada da nossa mente. Não cresceu. Estas idas e vindas tem um custo. O custo de olhar para o que não mais somos e aceitar aquilo em que nos transformamos. Pensar que a mudança pode ser daqui para frente. Aquele tempo passado não volta.
Tenho pensado muito nisto. Talvez porque veja meu filho realizando sua jornada de uma forma mais leve e serena.
Penso que de alguma forma me reinventei e não deixei que o brilho dele se apagasse. Ao contrário, Aflorou em uma vida renovada de afeto contínuo.
Descobrir que podemos ser uma boa companhia para nós mesmos faz uma enorme diferença. Faz com que a vida seja um pouco mais leve. Faz com que novos encontros e reencontros sejam mais saudáveis.
Somos feitos de amor pois somos divinos por natureza. Somos livres e quando adormecemos experimentamos a possibilidade de uma vida mais plena em mundos diferentes e épocas variadas.
Este momento em que não somos aquilo que nos julgamos é que nos permite acreditar que existam outros enredos e outros sonhos a serem sonhados.
Não digo que seja fácil. O risco é que seja possível. 
É este risco que precisamos correr. Um risco por algo que nos faça bem.
A reconciliação nos dá paz. Deixa nossa roupa assentar. 
O show continua!
O espetáculo não acaba.
O palco da vida sempre se abre para uma nova peça.
Somos novamente crianças perdidas de nós mesmos. Sem tantas críticas e julgamentos.
Podemos pensar então na nossa velhice que tanto nos angustia como ponto de chegada, finitude, decrepitude de uma outra maneira.
Pois, também, esta roupa vai ficar pelo caminho. Com sua narrativa. Este é o segredo. Não tentarmos misturar as narrativas e os personagens.
Estes vão se sucedendo. Cada qual com sua dificuldade de memorizar a fala e o papel.
Porém, no final, ao final, todos vão ficando pelo chão.
O que sobra é aquilo que sempre esteve ali.
O brilho de cada um como criatura divina que nãos e apaga.


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