segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Ocidente é um acidente - Por um diálogo entre as civilizações. Roger Garaudy - Ed. Forense Universitária

p. 116 - Vou citar textualmente palavras de um africano, Boubou Hama:

Na perspectiva africana, o universo inteiro é concebido como um campo de forças; quer se trate das forças da natureza, dos ancestrais ou do próprio homem.
Por exemplo, o vínculo que une um africano à sua terra é coisa diferente de um direito: esse elo tem uma significação biológica e quase metafísica. A terra e o homem são parte um do outro, pertencem ao mesmo campo de forças.
Quando um homem se serve da terra, quando lavra a terra, quando abate suas árvores, quando pesca os peixes de seus rios, quando faz uso da terra ou do que esta engendra, o africano está consciente de atentar contra a ordem estabelecida do universo, sua estabilidade, seu equilíbrio; e para restabelecer este equilíbrio, observa, escrupulosamente, os ritos que legalizam seus atos, oferece sacrifícios.
Da mesma maneira, o joalheiro não tem o direito de falsificar o ouro, a prata ou o cobre.
A aliança que liga o joalheiro a seus metais é igualmente um vínculo biológico e metafísico. Se ele misturasse esses metais com outros, se os desnaturasse, eles se vingariam sobre o homem que ousou assim romper a aliança concluída entre ele e a matéria com que trabalha.
Da mesma maneira, ainda, o caçador se sente ligado física e espiritualmente ao animal ou ao vegetal, com toda a vida do universo, indivisivelmente física e espiritual.
Sabe que os animais ou os vegetais não são somente para servirem de ornamento, ou elementos exteriores, mas são realidades materiais e espirituais nas quais se concentra e se realiza o equilíbrio entre o campo das forças físicas e os espíritos que o regem.
O caçador tem perfeita consciência de que sua caça é uma destruição, que produz um desequilíbrio na natureza; assim como a derrubada de árvores que são também pontos de força, como toda realidade viva.
Há nas árvores gênios/espíritos, bons ou maus, e os gênios podem se vingar dos lenhadores que destroem.
Com essa visão do mundo, o africano sempre oferece um sacrifício antes de dispor de um elemento do universo, quer se trate do vento, da água, do mineral, da gruta, do animal, da árvore, da própria terra.
Nada disso é apropriado ou manipulado ao acaso e impunemente.”

Sobre as Memórias - Ruben Alves

Memória é onde se guardam as coisas do passado.
Há dois tipos de memória: memórias sem vida própria e memórias com vida própria.
As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem.  Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de que? À espera de que as chamemos.  Ao chegar a um hotel a recepcionista nos entrega uma ficha para ser preenchida. Lá estão os espaços em branco onde deverei escrever meu  nome, endereço, número da carteira de identidade, do CPF, número do telefone, e-mail. Abro a minha caixa de memórias sem vida própria e encontro as informações pedidas. Se desejo ir do meu apartamento à casa de um amigo eu pergunto: que ruas tomar para chegar lá? Abro a  caixa de ferramentas e lá encontro um mapa do itinerário que devo seguir. É da caixa das memórias sem vida própria que se valem os alunos para responder às questões propostas pelo professor numa prova. Se a memória não estiver lá   ele receberá uma nota má...
São essas as memórias que os neurologistas testam para ver se uma pessoa está sofrendo do mal de Alzheimer. O médico, como quem não quer nada, vai discretamente fazendo perguntas sobre a cidade onde se nasceu, o nome dos pais,  onde moram os filhos. Se a pessoa não souber responder é porque sua caixa de memórias está vazia. Essas memórias são muito importantes. Sem elas não poderíamos nos virar na vida. Estaríamos sempre perdidos.
As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós mas não nos pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas! A gente vai calmamente andando pela rua e, de repente, um cheiro de pão. E nos lembramos da mãe assando pães na cozinha... Viajando, olhando a paisagem com pensamento perdido, vemos um rio. E a alma começa a recitar “O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio da minha aldeia.” E nos lembramos então do riachinho em que brincávamos quando crianças. 
Uma leitora enviou-me um e-mail em inglês. Desculpou-se. É egípcia. Vive no Brasil, entende bem o português mas tem dificuldades em se expressar. Disse-me que gostava das coisas que escrevo. Escreveu-me para dizer que uma palavra, uma única palavra que eu havia escrito a apunhalara. Numa crônica que eu escrevera para minhas netas, contando como era a vida na roça, disse que não havia eletricidade. Portanto não havia geladeiras. As comidas eram guardadas num armário de tela chamado “guarda-comida”. Essa foi a palavra que a apunhalou. Como é que uma palavra tão banal pode apunhalar? Não foi a palavra. Foi a lembrança.  Ela já havia se esquecido de que essa palavra existia. Aí, quando ela a leu, um passado longínquo  retornou. Ela se viu menina na cozinha  de sua casa no Cairo. Lá havia um guarda-comida...
 “Alma” é o nome do lugar  onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam.
Minha amiga querida Maria Antônia de Oliveira escreveu:
“A vida se retrata no tempo formando um vitral, de desenho sempre incompleto, de cores variadas, brilhantes, quando passa o sol. Pedradas ao acaso acontece de partir pedaços ficando buracos, irreversíveis. Os cacos se perdem por aí. Às vezes eu encontro cacos de vida que foram meus, que foram vivos. Examino-os atentamente tentando lembrar de que resto faziam parte. Já achei caco pequeno e amarelinho que ressuscitou de mentira, um velho amigo. Achei outro pontudo e azul, que trouxe em nuvens  um beijo antigo. Houve um caco vermelho que muito me fez chorar, sem que eu lembrasse de onde me pertencera." (Ceriguela, p.14)
É com esses cacos de memória, pedaços de nós mesmos, que se escrevem romances, estórias infantis, poesia, lendas, mitos religiosos, utopias. Nietzsche dizia que só amava os livros escritos com essas memórias, escritos com sangue. E Guimarães Rosa dizia a seus leitores que, para se ser escritor é preciso  conhecer a alquimia do sangue do coração humano. Ler um livro escrito com sangue é participar de um ritual antropofágico. É uma celebração eucarística.
Quando eu contava uma estória para minha filha pequena ela me perguntava: “Papai, essa estória aconteceu mesmo?”  Traduzindo em linguagem de adulto: essas memórias são memórias de coisas que aconteceram ou são invenções? Eu ficava quieto, sem saber o que dizer. A explicação seria: “Não aconteceu nunca para que aconteça sempre...” O corpo se alimenta do que não existe. Temos saudade do que nunca aconteceu.
É muito fácil contar o passado usando as memórias sem vida própria. É só coletar os fatos e organizá-los numa ordem temporal e espacial. É assim que se escreve a “história”.
Mas é muito difícil contar as memórias com vida própria. Mia Couto, escritor angolano, sabe disso. Eis o que escreveu: “O que Dona Luarmina me solicita são exactas memórias. E isso é o que eu menos quero. Não é que me faltem lembranças. Estão é espalhadas em toda a minha substância. Meu corpo foi-se tornando um cemitério de tempo, parece um desses bosques sagrados onde enterramos nossos mortos.” 
As coisas se complicam quando é um velho contando estórias da sua infância. A saudade mistura tudo. A saudade não conhece o tempo. Não sabe o que é antes e nem depois. Tudo é presente. “A lembrança pura não tem data. Tem uma estação. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável? O devaneio não conta histórias...”  ( Bachelard )
Aí vem a confusão. O escritor duvida de suas lembranças e pergunta como a Adélia Prado:  “Houve esta vida ou inventei?” Se a Adélia dirigisse a mim a sua pergunta acerca das coisas que eu conto eu responderia. “Se essa vida não houve, quando a escrevo fica havendo...

Correio Popular 20/08/2005

O Batizado - Ruben Alves

Sérgio, meu filho, me fez um pedido estranho. Pediu-me que preparasse um ritual para o batismo da Mariana, minha neta. Eu lhe disse que, para se fazer tal ritual, é preciso acreditar. Eu não acredito. Já faz muitos anos que as palavras dos sacerdotes e pastores se esvaziaram para mim, muito embora eu continue fascinado pela beleza dos símbolos cristãos, desde que sejam contemplados em silêncio.

Ele não desistiu e argumentou: “Mas você fez o meu casamento.“ De fato. Lembro-me de como ele encomendou o ritual: “Pai, não fale as palavras da religião! Fale só as palavras da poesia!“ E assim foi. Foram textos do Cântico dos Cânticos, poema erótico da Bíblia, que deixa ruborizadas as faces dos beatos e beatas: “Teus dois seios são como dois filhos gêmeos de gazela! Teus lábios gotejam doçura, como um favo de mel, e debaixo da tua língua se encontram néctar e leite...“ Divirto-me pensando na cara que fariam Papa e bispos se lessem esses textos... Seguiram-se textos do Drummond, do Vinícius, da Adélia - tudo terminando não com a chatíssima Marcha Nupcial, mas com a Valsinha, do Chico, ocasião em que os convidados, moços e velhos, pegaram os seus pares e trataram de dançar. Foi bonito. Quando a coisa é bonita a gente acredita fácil.

Lembrei-me, então, de um trecho do livro Raízes negras - onde se descreve o ritual de “dar nome“ ao recém-nascido, numa tribo africana.

Omoro, o pai, moveu-se para o lado de sua esposa, diante das pessoas da aldeia reunidas. Levantou então a criança e, enquanto todos olhavam, segredou três vezes nos ouvidos do seu filho o nome que ele havia escolhido para ele. Era a primeira vez que aquele nome estava sendo pronunciado como nome daquele nenezinho. Todos sabiam que cada ser humano deve ser o primeiro a saber quem ele é. Tocaram os tambores. Omoro segredou o mesmo nome no ouvido de sua esposa, que sorriu de prazer. A seguir foi a vez da aldeia inteira: “O nome do primeiro filho de Omoro e Binta Kinte é Kunta!“ Ao final do ritual, após desenvolvidas todas as suas partes, Omoro, sozinho, carregou seu filho até os limites da aldeia e ali levantou o nenezinho para os céus e disse suavemente: “Fend kiling dorong leh warrata ke iteh ted“:“Eis aí, a única coisa que é maior que você mesmo!“

Essa memória me convenceu e tratei de inventar um ritual de “dar nome“, já que nenhum eu conhecia que me agradasse.

Organizei o espaço do living. Empurrei a mesa central, baixa, na direção da lareira. À cabeceira coloquei um banquinho velhíssimo - ali a Mariana se assentaria. Ao lado, duas cadeiras, uma para o pai, outra para a mãe. Na ponta da mesa, uma grande vela. É a vela da Mariana, vela que a acompanhará por toda a sua vida, e que deverá ser acesa em todos os seus aniversários. Ao lado da sua vela, duas velas longas, coloridas. E, espalhadas pela sala, velas de todos os tipos e cores. Na ponta da mesa, ao lado da vela da Mariana, um prato de madeira com um cacho de uvas.

Reunidos todos os convidados, começou o ritual. Foi isso que eu disse: “Mariana: aqui estamos para contar para você a estória do seu nome. Tudo começou numa grande escuridão.“ As luzes se apagaram enquanto, no escuro, se ouvia o som da flauta de Jean Pierre Rampal.

“Assim era a barriga da sua mãe, lugar escuro, tranqüilo e silencioso. Ali você viveu por nove meses. Passado esse tempo você se cansou e disse: ‘Quero ver luz!‘ Sua mãe ouviu o seu pedido e fez o que você queria. Ela ‘deu à luz‘. Você nasceu.“

A mãe e o pai da Mariana acenderam então a vela grande, que brilhou sozinha no meio da sala.

“Veja só o que aconteceu! Sua luz encheu a sala de alegria. Todos os rostos estão sorrindo para você. E, por causa desta alegria, cada um deles vai, também, acender a sua vela.“

Aí o padrinho e a madrinha acenderam as velas longas coloridas, e os outros todos acenderam, cada um, uma das velas espalhadas pela sala.

À chegada dos convidados eu havia dado a cada um deles um cartãozinho, onde deveriam escrever o desejo mais profundo para a Mariana. Continuei:

“Você trouxe tanta alegria que cada um de nós escreveu, num cartãozinho, um bom desejo para você. Assim, pegue esta cestinha. Vá de um em um recolhendo os bons desejos que eles escreveram. Esses cartõezinhos, você os vai guardar por toda a sua vida...“

E lá foi a Mariana com a cestinha, seus grandes olhos azuis, de um em um, sendo abençoada por todos.

“Todos deram para você uma coisa boa“, eu disse depois de terminado o recolhimento dos cartões. “Agora é a hora de você dar a todos uma coisa boa. Você é redondinha e doce como uma uva. Esta é a razão para este cacho de uvas. E é isso que você vai fazer. Seus padrinhos vão fazer uma cadeirinha e você, assentada na cadeirinha, vai dar a cada um deles um pedaço de você, uma uva doce e redonda...“

E assim, vagarosamente, a Mariana celebrou, sem saber, esta insólita eucaristia: “Esta uva doce e redonda é o meu corpo...“

Terminada a eucaristia, eu disse à Mariana:

“Agora, chegando ao fim, cada um de nós vai dizer o seu nome. Preste bem atenção. O nome é um só. Mas cada um vai dize-lo com uma música diferente. Porque são muitas e diferentes as formas como você é amada.“

E assim, iluminados pela luz das velas, cada um dos presentes, olhando bem dentro dos olhos da menina, ia dizendo: “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“, “Mariana“...

Aqueles que olhavam os olhos da Mariana puderam ver que, à medida que ela ouvia o seu nome sendo repetido, eles iam se enchendo de lágrimas...

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)

Meu bom e belo Fernando Pessoa

" O essencial é saber ver -
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)
Isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender...

Procuro despir-me do que aprendi,
procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
desembrulhar-e e ser eu..."

Fernando Pessoa, Obra Poética, pp.217-226

Variações sobre o prazer - sobre a arte de ensinar de Rubem Alves

Escutando a natureza, ouvindo o Deus interno

Hoje o dia amanheceu regado pela chuva forte que caiu na madrugada de sábado para domingo.
Um pouco de sol, um pouco de vento, um pouco de frio.
Uma mistura de aromas da natureza se abrindo em flor.
Nestes dias, parece que o tempo não anda , todos se recolhem com medo da chuva que nem sabem se vai cair.
Nos enclausuramos, fechamos as janelas e esperávamos. Quando foi que perdemos a alegria de sair na chuva querendo nos molhar?
Quando foi que perdemos a vontade de encontrar os cheiros da natureza, desta mística relação com os elementos sagrados da vida que existem em nós?
Escutar a natureza é escutar o Deus que existe dentro de cada um de nós.
Deus que nos fala pelo vento, pelas águas da chuva, pelo calor do sol ...
que se expressa na força com força, com ternura, com silêncio.
Respondemos ás 4 estações, às mudanças da Lua, aos ciclos da natureza porque somos  parte desta obra do criador.
Precisamos reaprender o ato de ouvir.
Ficar parados a espera do sinal, do som, do murmúrio divino que nos sopra a sabedoria dos iniciados. tantos que passaram pela vida, procurando ensinar, procurando mostrar que nesta estrada,a  da vida, existe muito mais do que nos olhos podem eprceber.
Ouvindo a natureza estaremos ouvindo ao que de mais belo existe em nós, nossa pureza divina.
Seremos, então, nosso melhor conselheiro.



Simplesmente, amigos!

Amigos estão ali, dentro dos nossos corações, ao alcance de um afeto. Circulam livremente nas estradas das nossas emoções normalmente aparecendo nas encruzilhadas, pondo fim as nossas dúvidas sobre o melhor caminho a seguir.
Amigos são direções, coordenadas e pequenas sinalizações...
São nossas melhores memórias em tempos de tantas distrações. Amigos não cutucam, pedem permissão. Amigos não “postam”, falam com os olhos, da imensidão que sabem significar em dias de tantas tecladas, mas de profunda solidão.
Amigos são realmente pequenos mundos, pequenos mapas, pequenas cavernas que nos acolhem no inverno, nos aquecem no outono, se revelam na primavera e nos abraçam no verão.
Amigos são estações da alma que se modificam, se transformam, limpando a neve acumulada nas nossas janelas e portas.
Alguns mais audaciosos chegam até a entrar em nossa chaminé para espalhar o carvão, soprar a brasa e despertar nossa mente e intuição.
Com os amigos somos capazes de deitar no sofá e contar as coisas que se passam conosco.
Aquelas que estão bem guardadas na moldura do nosso inconsciente, na caixa secreta da nossa mente.
Guardamos tantas coisas, tantos instantes, tantas caminhadas, tantas vidas...
As vezes queremos apenas sentar ou deitar no colo aquecido dos nossos melhores momentos, nas nossas almofadas mais macias só por um breve momento, entre um ano e outro, entre um dia e outro, entre um amadurecimento e outro, tal qual pé de feijão, que cresce e leva para Terra do Gigante.
Amigos nos colocam nas nuvens embora lá também tenha o castelo deste Gigante, que bem pode ser a preocupação que nos aprisiona.
E quem melhor que um amigo para fazê-las, as preocupações caírem de maduro.
Amigos nos tiram dos rolos em que nos metemos porque sabem que até mesmo o maior rolo pode ser desenrolado.
É só encontrar o lugar certo, o ponto certo para destacar e puxar.
As vezes viver é o maior rolo  no qual nos metemos. O maior porque é o único que não pode ser evitado. Viver a vida é dar a chance de encontrar dentro de si , o melhor dos amigos, você mesmo.
Seja seu melhor amigo!!!
Convide-se para uma convivência amigável e cheia de surpresas.
Existem espinhos? Existem!
Temos momentos duros?
Temos!!
Não dá para ser diferente, portanto, acomode-se com você mesmo.
Acolha a sua melhor posição, encontre a melhor maneira de conciliar as suas dores e amores.

Falando sobre Educação...

Entrevista com Alê Braga (professor e educador) - Revista de Domingo do Jornal "O Globo"


1 – O que você viu na Finlândia?

A frase “piores escolas” não faz muito sentido por lá. A diferença entre a pior e a melhor é mínima. Todas são boas. É mais fácil entrar na faculdade de Medicina que na de Pedagogia. Para dar aula em qualquer nível, só com Mestrado. Professor é a carreira mais desejada, ao lado do médico. O salário não é maior do que a média dos países ricos, mas é principalmente por uma questão de respeito.

2 –  Algum caso lá o impressionou em especial?

Para uma professora que ouvimos, todo aluno tem que ter a chance de atingir o seu potencial. Ela só tem aluno problema. Cuida de quem está com algum obstáculo: de comportamento, aprendizagem, falta de concentração, questão familiar. Está ali para mostrar que ter problema é normal e para achar a solução junto com o aluno. Afinal, todos temos dificuldades em algum momento da vida escolar. Ela diz: “ Temos sempre que cuidar dos mais fracos. Considero isso uma medida de civilidade.” O foco na Finlândia é tão deixar nenhum aluno para traz.

3 – É verdade que em Xangai o Estado teve que criar leis para limitar as horas de estudo em casa?

Tanto em Xangai como na Coréia do Sul há esforços do governo para diminuir a pesada carga de estudo. Em Xangai, os professores são cobrados para reduzir os deveres de casa, lá, as melhores escolas foram responsabilizadas por ajudar as piores. Visitamos a que era pior de um distrito, e hoje é organizada e com bons resultados. Na Coréia, há a determinação oficial de reduzir os cursos de reforço, que no passado recente chegavam a ir até de madrugada. Hoje o horário é restrito: até 22h, 23h. Mas eles estão longe de conseguir pôr limites, por causa da pressão das famílias. A educação é muito pragmática, o objetivo é o sucesso, os seja, entrar nas melhores universidades. Se o vizinho investe em estudo, é preciso se dedicar mais.


Não é uma pressão muito grande sobre os alunos?

O que a Coréia fez como nação é incrível, mas ninguém da equipe do programa colocaria seu filho numa escola de lá. Não vi sorrisos. Existe outra medida que não resultados. Um professor disse: “Toda criança está recebendo a mensagem de que ou você é doutor em Harvard ou deu errado”.Entrevistamos um jovem que estudo todo dia no mínimo de 8h às 22h. E nos fins de semana “bem menos”, umas dez horas. Disse que quer ir ao MIT, depois Harvard, e trabalhar em Manhattam como advogado.

E ser professor no Brasil ainda atrai?

A idéia de ensinar ainda encanta muita gente, várias pessoas falam em ser professor com brilho nos olhos, mas quando param para pensar, desistem. É urgente valorizar a carreira, Eu dava aula em faculdade e os alunos perguntavam: “Você trabalha onde? “ Eu respondia: “Como assim? Sou seu professor, estou fazendo o que na sua frente?” Diziam: “Não, estou falando de trabalho mesmo”. E não é só melhorar salário. Lembro da minha mãe, que foi professora por 35 anos, corrigindo prova de madrugada. Em Xangai, ouvimos um professor. Das oito horas diárias de trabalho, só duas eram na sala. No resto do tempo, ele preparava a aula , corrigia prova , se reunia com outros professores e visitava a família dos alunos.

DECIDIDO - Da série "Poesia numa hora dessas?"

"Encoste o ouvido num tronco
e ouça o sangue do mundo rodando.
Encoste o ouvido no chão
e ouça o mundo ronronando.
o mundo funciona sozinho
e com destino decidido.
Recolha-se ao seu cantinho
e, claro, limpe o ouvido."

Retirado da Revista de Domingo do jornal "O Globo".



De conchinha



"Os dois corpos deitados
Lado a lado, em S inverso
Grudados, prolongados
Um no outro e no reverso,
Falam entre si, dilatados
poro a poro, conversos.
Numa só concha colados,
Como silenciosos versos
Ao som do mar soprados,
Contêm eras, universos,
Vozes de doces passados,
No duplo futuro imersos.
Leem-se, textos espelhados,
Decorando de modo diverso
O que era sabido e inacabado:`
Pés se roçando perversos,
Costas no peito, seio abraçado,
Joelho juntos a seus anversos,
Bunda no púbis encaixado,
Rosto nos cabelos submerso.
Perenes, jamais dispersos,
São umorganismo
Concentrado."

Retirado do jornal "O Estado de São Paulo".

domingo, 30 de outubro de 2011

Fantasiando...

Sou uma pessoa que precisa de fantasia na vida e no viver. Não a fantasia da impossibilidade, como um contraponto, como uma fuga.
A fantasia é minha imaginação em atividade, é minha capacidade de produzir sonhos e novas realizações, o que na rotina do dia a dia, é , as vezes, impossível.
A vida é esta aquarela, este quadro que nunca terminamos de pintar.


São tantas as combinações e os estilos que não arrisco nem pensar, ops! Imagino imaginar. Tantas histórias e tantas linhas a serem preenchidas que perco a respiração.
Tudo está dentro de nós. Dentro do mundo dos nossos pensamentos cercados pela abóboda celeste.
Sóis, constelações, jardins, castelos, reis e rainhas.
Qual história você gostaria de inventar?
Só de brincadeirinha...


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sebastião Salgado - Pequenas reflexões!

Culturas particulares dos povos


Sebastião Salgado, Entrevista concedida a Caros Amigos em 2002.


Em viagem recente ao Rio de Janeiro, relembrando com Lélia (companheira de Sebastião Salgado e produtora gráfica de seus trabalhos) de quando estudávamos sobre os acidentes geográficos em torno desta cidade, tais como o dedo de Deus, os Dois Irmãos, considerávamos isto como dados da mais alta importância na geografia, e até sentíamos um tremorzinho quando víamos uma dessas referências. Hoje não temos mais estas sensações, houve uma padronização, uma harmonização de tudo; claro, por meio de um sistema informativo incrível, de um brutal acesso às informações. Mas a questão que me coloco é: Como é que vamos voltar atrás, será que tem jeito? Será que isto não é uma opção, que foi feita de uma parte, imposta de outra? Trabalho muito no mundo inteiro. As primeiras vezes que fui a Índia, todos os homens usavam calça branca amarrada na cintura com um blusão que chegava até o joelho, indumentária muito elegante. As mulheres todas de sári. Hoje, parte das mulheres ainda continua usando sári, mas os homens estão todos de jeans e camiseta, exceto durante as festividades, ou ainda muito no interior do país. Nós podemos sair deste sistema? Essa questão já prova uma parte do sofrimento que nós estamos tendo com a pressão da padronização. Talvez a gente pudesse, num país como o nosso, fazer outra globalização, um pouco mais humanizada. Não acredito que o governo Lula vá poder sair do sistema global, do qual o Brasil faz parte, e teve que fazer parte. Não podia fazer caminho separado. Mesmo países como a Índia e a China, que não aceitam a pressão do FMI, estão todos também padronizados, talvez com margem pouco melhor de manobra, mas no que diz respeito aos hábitos e costumes sofrem do mesmo problema. Se nós mesmos respeitássemos nossa singularidade cultural, seguramente viveríamos mais em conformidade com nossa auto estima. Mesmo na música popular, perdeu muito de sua influência. Os lançamentos nacionais muitas vezes são pressionados por um sistema global que informa, massacra e indica o que é importante. É como se a gente não tivesse identidade cultural.

Almofadas do Tempo!

Almofadas do tempo foram feitas para se jogar para o alto. Feitas para desfazer o tempo passado e agitar o tempo futuro. Dar uma sacudida na nossa tendência suicida de nos prostramos nos ancoradouros da acomodação levando uma vida parada e sem mudanças, sem nenhuma agitação que não seja a repetição dos dias e de sua programação pré-definida.
Por isto me passou a idéia da expressão; “Almofadas do tempo”. Lembra da guerra de travesseiros?  Pois é, tinha a de almofadas, também, e era uma forma de darmos um susto, tirar do sono, de nos mexermos do sofá, da cama e do chão.
Para onde foi nossa ousadia infinita?
Para onde foram os sonhos de nossos barquinhos de papel que colocávamos na banheira pensando estarmos em alto mar, em meio a batalhas e aventuras?
Para onde foi a nossa imaginação?
Para onde foram nossos sonhos inacabados na fase adulta.
Almofadas do Tempo!
Quero uma para jogar nas minhas idéias!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Livros

Começei a ler o livro de Rubem Alves; "Variações sobre o prazer".
Delícia! Realmente, um grande prazer.
Prazer comparável a uma degustação, no sentido mais sublime que esta palavra puder expressar.
No sentido de irmos provando pouco a pouco, os tempêros, os aromas, as combinações e os arranjos que a escrita deste singular autor nos proporciona.
Rubem tem a serenidade na escrita. Fala de sentimentos, sensações e estados da alma tão profundos , de uma forma suave quase como se fosse uma brisa que entra pela janela e nos refresca a intimidade dos pensamentos de uma forma inesperada.
Alguns livros me proporcionam esta emoção.
Uma das grandes questões que ele fala logo no inicio do livro é sobre a liberdade da escrita, dos pensamentos e porque não dizer, das emoções.
Porque encadeá-las dentro de um único formato quando temos tantas formas de nos expressarmos, tantas quantas forem os nossos transbordamentos ?
Foi de lá que tirei e postei por aqui a poesia de Fernando Pessoa.
Vejam o que ele escreve sobre formas e métodos da escrita:

" No País dos Saberes" há regras precisas que regulam a fala e a escrita. Regras claras, rigorosamente definidas. Quem tropeça é expulsa. para entrar no "País dos Saberes" há que se passar por rituais de exame de linguagem. tais rituais têm o nome de "defesa de tese". nas defesas (evidentemente deve haver um ataque) seja mestrado, seja de doutoramento, não se presta atenção no que o postulante à admissão diz.mas se prestará rigorosa atenção no como ele diz.Qualquer que é permitido, desde que o como  seja obedecido. não importa o que o postulante escreveu, importa  o seu domínio da gramática da linguagem do saber, científico ou filosófico."


Fragmentos da alma

Lembro do dia em que me parti em vários pedaços. Não foi de forma repentina e nem anunciada, e sim, no silêncio de um corpo que não mais se expressava. Algo em mim se rompeu como um novelo que se desprende do rolo e perde o fio da meada.
Ficamos tentando juntar, rejuntar, misturar e embaraçar novamente mas o fio se rompeu e lnão dá mais liga.
A alma ficou suspensa no ar. Solta, fragmentada em várias partes; passadas, presentes e futuras.
Nem bem sei como me cuidei para que não me perdesse para sempre de mim.
Nem bem sei como pude chegar a um lugar que alguém, que não eu, tinha marcado para ir.
Nem bem sei mais quem deveria encontrar.
Como poderia, já que não sabia mais quem ia?
Lembro deste dia como se fosse noite.
Uma noite sem céu. ´
Um céu sem estrelas.
Sem lua ou luar.
Lembro deste dia como hoje embora, tempo tenha passado e o hoje virou ontem, sem nem me avisar.
Passa rápido este tempo
em que não sabemos bem onde nos encontrar.
Uma história sem início ou fim, sem heróis ou bruxas, apenas uma caverna passageira onde permanecemos até o dia clarear.
Hoje tudo volta,
com outro passageiro de agonia.
Só me cabe seguir,
esperando poder ao lado dele estar. Protegendo-o de si mesmo,
esperando com calma, a hora dele voltar ou desembarcar.
Não importa o tempo que leve,
quero apenas lá estar,
tal como um encontro marcado
para poder abraçar.

Pessoa para emocionar a alma

Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós
Ouvi-te e ouvia-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas cantar
E a melodia
Que não havia
se agora a lembro
Faz-me chorar.
Fernando Pessoa, obra Poética, p. 179.

Pequenas coisas que fazem toda diferença

Este fim de semana fiquei entregue as pequenas coisas que fazem uma enorme diferença nas nossas vidas, no nosso humor e na nossa relação com o que nos cerca. Sábado, pela manhã, fiquei lendo um livro de Paul Bruton chamado "A Índia Secreta". Acompanhado por várias varetinhas de incenso , rapidamente lá estava eu no meio da viagem com o autor, acompanhando cada jornada, cada descoberta, cade desventura...
É um livro divinamente maravilhoso por nos proporcionar a possibilidade de termos uma outra compreensão do mundo, das pessoas e de tudo a nossa volta. O período das viagens está compreendido nos anos 40, ou seja, muito tempo atrás. No entanto nos pegamos com a sensação de que esta é a viagem que nós gostaríamos de ter feito ou que pretendemos fazer algum dia. Uma viagem pelos caminhos da alma, encontrando respostas, descobrindo novas perguntas, reencontrando nosso eixo interno.
Ainda vou postar alguns trechos do livro com alguns comentários.
Nossa crise externa é reflexo deste distanciamento do sagrado, do divino e do universo.
Nossa liga só fica completa quando alimentamos nosso espírito e conseguimos nos conectarmos com as suas necessidades. Necessidades estas totalmente diferentes das que nos são exigidas pelo mundo físico o o tempo todo.
Estou com uma ponta de tristeza em estar acabando o livro mas esta fase indiana ainda vai continuar pois estou ancorado em outros livros e autores dentro desta mesma mandala.
É o meu momento, a minha necessidade de instrospecção.
Meu momento sagrado, pequeno mas especial

Limpando o ambiente

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Querendo voltar!

Engraçado esta coisa de Blog. Antes, escrevia em um diário de papel mesmo. Resolvi colocar o que era do mundo do papel e concreto, para o digital, imaginário. Resultado? Travei! Parece que fiquei preso entre um mundo e outro. Nem bem escrevo no mundo digital e não mais escrevo no mundo concreto de papel armado.
Tanta tecnologia, tantas possibilidades...
O jeito é ir tentando agradar meus dois senhores, ou seja, meus dois diários, íntimos e confidentes, de minhas andanças, reais ou imaginárias, no mundo da escrita varrida ou da reflexão digital.
Tenho algumas abstrações escondidas dentro de mim.
Quando penso em dar uma cavada no meu sítio arqueológico, acabo fincando a pá no chão e esperando um pouco. Como que tateando o melhor lugar por onde começar.
Enquanto não acho o ponto ideal vou cavucando...